Chick Corea é um lambisgóio e Macbeth não vale um tostão

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A parte que eu realmente gosto no meu trabalho voluntário no Mondavi Center é aquela hora antes das portas se abrirem para o público, quando entramos no teatro vazio e vemos o artista em roupas comuns, testando os instrumentos, o microfone, ensaiando com a banda, aquecendo a voz, ou o corpo, todas essas coisas que você não vê quando compra um ingresso para um show. O teatro é lindo e tem uma acústica impressionante. É um lugar mágico, porque ali mágicas acontecem. Eu gosto de observar também o corre-corre do pessoal da iluminação e do palco, as luzes apagando e acendendo, é realmente um treat.
Mas não ando muito animada para trabalhar mais quatro horas, depois das minhas oito oficiais. Eu preferiria ficar em casa vendo filmes na tevê. Então estou meio que só cumprindo a minha obrigação, já que me inscrevi pra trabalhar nesses show há muitos meses. E em março eu estou escalada para muitos shows.
Na terça-feira foi o Chick Corea, que trouxe sua banda colorida com um brasileiro percussionista de dreadlocks, um madrileno flautista de mullets, mais baterista, baixista e uma dançarina de flamenco simplesmente excepcional. O show foi excelente, mas infelizmente o cansaço não me deixou aproveitá-lo como deveria. Eu começo a ficar agitada, irritada e me ponho a falar coisas das quais vou me arrepender. Ainda mais que o Corea estendeu o show de noventa minutos para duas horas e meia. Eu pensei que nunca deitaria na minha cama…
E no dia seguinte enfrentei Shakespeare, trazido por uma companhia novaiorquina que vem todo ano para duas apresentações: sempre uma história do Bardo e outra de outro autor, mas também clássica. Este ano é Macbeth e Os Três Mosqueteiros. Dos Mosqueteiros eu me livrei. Mas tive que encarar as duas horas e meia de inglês de mil e seissentos, tentando não sucumbir de cansaço e irritação. Mas o pior nem foi isso. O grande esforço foi tentar disassociar o sanguinário e demente Macbeth, da cara de Matthew Perry que o ator do personagem tinha.

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