não comprei uma bicicleta

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Há tantos anos na cidade das bicicletas e nunca tive uma. Minto, tive uma quando cheguei aqui, mas aquela não conta porque foi traumatizante. Ganhei uma bicicletinha cor-de-rosa, que pertencera à uma baixinha, bem baixinha. Como eu pedalava nela era uma humilhação, toda curvada, joelhos batendo no guidão. Me livrei dela assim que pude e nunca mais pedalei.
Pensei muitas vezes em comprar uma bicicleta mais adequada para a minha altura, mas nunca comprei. Pesquisei, olhei, até escolhi o modelo, que seria uma cruiser de guidão alto. Pra ficar corcunda, andar à pé já basta.
No final das contas acabei ganhando uma bicicleta. Ela pertenceu à um rapaz bem alto, muito alto e então já pressenti que não teria problemas com pernas e guidões, correntes engrenando na calça jeans e, principalmente, a corcunda.
bikedafer.JPG
Ela é uma bicicleta cruiser, exatamente como eu queria. Com duas cestas laterais pra carregar bolsa, casaco, comprinhas. Só que ela é antiga, do tempo do breque de pé. Isso mesmo, breque de pé! Custei pra acostumar. No primeiro dia que segui cruzando com ela pelas ruas de downtown para encontrar as minhas amigas no Ciocolat, a três quadras da minha casa, fiz todas as barbeiragens possíveis. Depois de todos esses anos atuando como pedestre ou motorista de carro, quando me vi livre achei que podia pedalar pela calçada, atravessar a rua como quisesse, como se eu estivesse à pé. Peguei a bike lane na contramão, dei umas boas bambeadas e quase distendi um músculo da perna montando e desmontando da bike – ela é realmente alta ou eu que desaprendi a montar e desmontar de magrelas? Tenho ido trabalhar com ela, pedalando toda pimpona pelo campus da UC Davis. Agora me sinto parte da cidade, onde não ter bicicleta é considerado meio anormal.

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  • Ana, o Rio eh uma cidade bem grande pra bikes, neh?
    Marcia, acho que os paises asiaticos sao mais adeptos das bikes que nos.
    Tereza, adorei o Garibalda! Ha ha ha ha ha!
    beijaoo!

  • Hahahahahahahhahahaahhahaha
    Fer, uma Garibalda feito tu, pedalando uma bicicletinha baixa e ainda por cima cor-de-rosa imagino a cena hahahahaha você devia ter pedido a alguém pra filmar.
    Essa aí é muito “lorde”, hein? Ainda mais com duas cestinhas? Que legal!

  • Fer, quando morei no Japão meu veículo era uma bicicleta que achei jogada no mato. Ela tinha uma cesta enorme na frente onde eu colocava as compras do mercado. Me bateu uma saudade daquela época…

  • Leila, ela nao eh muito linda, mas eh bonitinha! 🙂
    Afonso, no final dos anos 80 meu marido usava cinto de seguranca no carro e todo mundo tirava uma da cara dele. Talvez na historia da bicicleta, voce ainda vai posar de pioneiro. Aqui em Davis a cidade eh uma das mais bem estruturadas do pais para o uso publico de bicicleta, o que torna tudo mais facil. A populacao usa mesmo, principalmente a universitaria. Voce ve desde estudantes, ate funcionarios, professores e chefes de departamento bicicletando. Eu conheco uns professores emeritos bem velhinhos e ja aposentados, que continuam trabalhando e indo pro trabalho de bike! Meu marido nao pedala, porque moramos ao lado do campus. Dez minutos a pe, ele chega no departamento dele. Mas qdo moravamos um pouco mais longe, ele bicicletava todo dia! 🙂
    Ana Maria, ja ouvi falar das ciclovias do Rio. Mas eh pra recreacao ou pra transporte mesmo – ir pra la e pra cah a trabalho, pra escola, etc?
    Beijos!!

  • Aqui no Rio existem várias ciclovias, mas na Zona Sul da cidade. Quem mora na Zona Norte fica sem opção -tem que andar no meio do trânsito louco e aí é quase suicídio.

  • Que interessante: somos um país de boas fábricas de bicicletas (Caloi, Monark, etc.), mas bicicleta, por aqui, ainda é coisa predominantemente de criança. Uns tempos atrás eu tinha uma bicicleta e ia trabalhar com ela. Era uma gozação só pra cima de mim. Uma pena. bjs

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