pitpat pitpat

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Empresa de energia solar bateu na nossa porta.

Meu marido: aqui não dá pra instalar os painéis porque temos muitas árvores grandes em volta da casa

Funcionário da empresa: ah, esse problema é simples de resolver, é só cortar aquela árvore ali do fundo [uma centenária].

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Pior é que deve ter muita gente que aceita cortar árvores centenárias pra poder gerar “energia verde” e economizar na conta de luz. Não estou criticando a energia solar, mas sugerir cortar árvore, pera-lá!

Outro dia chorei quando vi uma casa que removeu duas oliveiras maravilhosas, uma em cada canto da entrada. Árvores lindas, saudáveis, carregadas de azeitonas gorduchas. Removeram as raizes, foi uma “operação”. E pra quê? Posso imaginar que era porque sujava o chão.

O cheiro da vida que não existe mais—o sabonete liquido de erva-doce da Natura. Era o cheiro da casa dos meus pais, que agora não tem mais meu pai, nem meu irmão que também morreu, e os três irmãos restantes estão cada um numa cidade diferente, e as crianças todas cresceram e foram embora do país. Acho que esse cheiro e o sentimento que ele desperta é uma manifestação concreta da palavra saudade.

Nos anos 80, me recusei a ouvir o álbum do grupo Traveling Wilburys, porque possivelmente na minha cabeça eu não concebia a ideia de ver o Dylan num grupo. peguei rancor da balada mais famosa deles. Mas que burra, perdi de ouvir verdadeiras preciosidades. Agora, com 30 anos de atraso, corrigi esse erro.

Caí por acaso num vídeo com o Will Smith falando sobre o Bhagavad Gita e fiquei em choque. Queria até escrever o que ele falou, porque era pura sabedoria.

Saímos por aí e fomos vendo infinitos pomares de amendoeiras florindo, vaquinhas, carneirinhos e cabras nos pastos, colina salpicada com moinho de ventos, campos amarelos com flores de mostarda, vinhedos, vinhedos, vinhedos a perder de vista. 🚙

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ring out the old, ring in the new

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Depois de mais de dois anos voltei ao meu prédio de trabalho pois meu chefe me pediu pra limpar o meu desk, já que estarei trabalhando de casa até março de 2023. E depois talvez fique assim em definitivo. Trouxe de lá 3 caixas grandes cheias de coisas, mais uma sacolona de pano com toalhas, chinelos e itens de banho. Não lembrava a quantidade de objetos que fui levando e acumulando naquele espaço. Eram coisas de banheiro e casacos, mantas, echarpes, par de tênis, azeite rançoso, chocolates, chás, barrinhas de cereal, decorações, pratos, canecas, xícaras com pires, talheres, bules, french press, e um mundárel de itens aleatórios e miscelâneas. Meldels, eu realmente vivia lá naquele canto da caverna! Fiquei dois dias pra arrumar as coisaradas que trouxe pra casa, reorganizar, jogar velharias fora ou por na caixa de doação. Quando e se eu voltar, no futuro ainda bem incerto—talvez no máximo hibridamente 1 vez por semana, certamente tentarei levar muito menos bugigangas.

Mas o mais importante pra mim foi perceber que tudo realmente passa. Aquele prédio, aquele desk, minha vida social, as interações na cozinha, as caminhadas, o espaço todo que era tão importante pra mim, já não é mais. Achei que iria ficar triste, mas não fiquei. Voltei pra casa feliz e certa de que tomei a melhor decisão, de ficar em casa até a pandemia se normalizar e quem sabe apenas voltar pra um dia trabalhando localmente ou só para reuniões. Não consigo mais me imaginar passando 9 horas do meu dia num outro lugar que não seja a minha casa.

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o momento

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Meditação é uma prática muito sutil e delicada. Você senta todos os dias, por quantos minutos conseguir, e tenta alargar o espaço entre os pensamentos. Todo dia aquilo parece uma frustração, mas na realidade não é. É parte da experiência. Depois de alguns anos, quando você já pode realmente ter uma opinião sobre o que está fazendo e o que está acontecendo, um dia percebe-se lá uma micro mudança em alguma coisa quase transparente. Aos poucos, muito devagar, dá pra começar a perceber que algo muito tênue está acontecendo. Não se visualiza arco iris, como me disseram uma vez. É algo muito mais airoso, mas definitivamente presente.

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within You without You

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We were talking about the space between us all
And the people who hide themselves behind a wall of illusion
Never glimpse the truth
Then it’s far too late
When they pass away
We were talking about the love we all could share
When we find it, to try our best to hold it there with our love
With our love, we could save the world, if they only knew

Try to realise it’s all within yourself
No one else can make you change
And to see you’re really only very small
And life flows on within you and without you

We were talking about the love that’s gone so cold
And the people who gain the world and lose their soul
They don’t know
They can’t see
Are you one of them?

When you’ve seen beyond yourself then you may find
Peace of mind is waiting there
And the time will come when you see we’re all one
And life flows on within you and without you

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this bird has flown

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Me senti naquele meme da Renata Sorrah quando vi a foto da mãe do moço famoso que tem 37 anos e percebi que aquela era exatamente eu. Só que meu filho já tem 39, rumando pros 40. Todo dia tenho uma experiência assim, que me certifica que entrei numa nova dimensão da vida.

Acredito que vamos evoluindo e removendo camadas, já removi muitas, e estou removendo mais uma. Essa camada é a da finitude da juventude, o que inclui ver meus pais envelhecerem e morrerem. Esse é o ciclo natural, ver o tempo passar. O que fica difícil é ver pessoas que ainda não fecharam o ciclo partirem.

Então passo semanas imersas em coisas que tinha perdido de ver porque estava ocupada com outras coisas. O que estava acontecendo quando eu era criança, depois uma jovem adulta mãe, e nós anos intermediários quando só pensamos em nos encontrar, ser a pessoa que fomos destinados à ser.

Agora o meu horizonte está mais nítido, menos pensamentos distraídos e ruídos que te impedem de ver certas coisas, ou te fazem ver outras de modo exagerado.

Está chovendo muito e isso faz os californianos felizes, apesar que aqui parece que ninguém possui um guarda-chuva.

Fui à uma festinha domingo, confraternização dos vizinhos. E comecei a sentir sintomas estranhos. Fui imediatamente fazer um teste pro Covid, porque hoje não fico protelando nada. Só não faço mesmo o que não posso ou não consigo. Tenho certeza que peguei um bug de gripe, mas não quero ficar com nenhuma duvida.

Ainda não fiz as contas de quantos livros li este ano, mas estou mantendo o ritmo e foram muitos.

Em menos de duas horas entro em férias. \o/

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The Yosemite National Park

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Levamos 25 anos para chegar nesse parque. Não sei por que cargas d’água sempre que se falava dele era de como era difícil conseguir um lugar pra ficar, tinha que reservar com um ano de antecedência, no inverno fechava tudo, mil lendas urbanas que ouvimos sem questionar. Até que um dia [esse dia chega!] começamos a escutar as pessoas certas. E nem fui eu que escutou, mas a pessoa mais complicada para sair de férias da família: o meu marido.

Quando ele decidiu que tínhamos que visitar o Yosemite, a viagem saiu em menos de um mês. E não precisava de nada mesmo, só reservar o hotel, arrumar as malas e pegar a estrada. O parque fica um pouco longe pra nós, 4 horas de viagem, mas nem é tão ruim assim se pensar o quanto que já dirigimos pelas estradas da Califórnia.

A grande ilusão foi achar que íamos chegar lá no começo de dezembro, num ano de seca, e encontrar uma paisagem branca, com neve. Não sei por que achamos que iria ser um winterland e fomos super preparados. Quando entramos no parque e vimos tudo verde ficamos realmente decepcionados. Mas o Gabriel, que já esteve no parque inúmeras vezes previu––com neve ou sem neve, vocês vão adorar esse parque. E foi realmente o que aconteceu. O que precisávamos ter tido era mais tempo pra explorer mais as trilhas. Mas prometemos pra nós mesmos voltar assim que pudermos, até compramos um passe pra um ano.

Estar nesse parque, rodeados por sequoias ancestrais e gigantescas e por aquelas pedras monumentais, como o Half Dome e o El Capitan, desperta na gente um sentimento de como a nossa insignificância é infinita, perante a maravilha que é toda essa força da natureza.

Os avisos sobre os ursos são onipresentes no Yosemite. Caixas de metal anti-ursos pra gente guardar comida abundam no parque e eles avisam que não é pra entrar nas trilhas com comida, somente água. Porque qualquer cheiro atrai os animais. e daí quem se ferra são sempre eles, os bichos. Fomos fazer uma trilha de deixamos toda a comida que tínhamos no carro dentro de uma das caixas. O Uriel tinha um pedaço de chocolate no bolso, e colocou também dentro da caixa. La quase no final da trilha, bem no topo de uma montanha, no meio do território dos ursos, um casal comia um saco de batata frita sabor vinagre. O cheiro dessas batatas é uma desgraça. Fiquei com muita raiva e sinto muita tristeza vendo o ser humano agir assim, de maneira tão estúpida.

No Segundo dia lá paramos pra almoçar no hotel Ahwahnee, que parece um castelo em formato de cabana na floresta. Foi construído na década de 20 para hospedar gente com muito dinheiro. Partes desse hotel foram usadas como cenário para o filme do Stanley Kubrick, The Shining. O lugar é recheado de artefatos indígenas por todos os cantos e na gift shop muita coisa [réplicas made in china?] com o mesmo tema . Depois, só por curiosidade fomos pesquisar o significado do nome Yosemite e ficamos chocados com a história da matança indígena naquela região. As tribos que viviam lá foram aniquiladas. Não sobrou nada, nem ninguém. Só sobrou o hotel se aproveitando da cultura que eles exterminaram.

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escrevi uma vida

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Quanta coisa que escrevi aqui nos últimos anos. Se eu tivesse tido um bebê quando iniciei esse blog aos 39 anos, hoje aquela criança teria 21 anos, seria um adulto. Outro dia mergulhei um pouquinho nos arquivos deste blog, 2002—2007 e dei muita risada, relembrei de um monte de coisas que tinha esquecido. E como era ter 42 anos e estar perdida, sem profissão? Muita gente não entende meus comodismos, como aquela menina de 22 anos que perguntou espantada se eu estava há 15 anos na mesma posição, no mesmo emprego. Sim, estou––respondi calmamente, porque ela não sabe o quanto me custou chegar aqui. Tentei fazer muitas coisas e amo fazer o que faço agora. Na verdade, estacionei mas não parei.

Me tornei uma pessoa bem mais prática, muito mais organizada e infinitamente mais tranquila.

Só gostaria de ter mantido o senso de humor, porque eu era engraçada. Meio pateta, muito atrapalhada e às vezes equivocada, mas muito espirituosa e perspicaz pros detalhes divertidos da vida. Fiquei mais série. E talvez mais correta.

 

Hoje eu trabalho período integral em casa, e então nado sempre que posso. Nadei praticamente todos os dias no segundo e terceiro semestres da pandemia. Depois ficou tudo muito complicado, eu tinha que acordar à meia-noite pra me registrar e resolvi que não nadaria nos finais de semana. Quando não nado, eu faço caminhadas. Como ontem [que tive almoço com meu chefe a a amiga] e hoje [que teve três reuniões, back-to-back]. Nesta época do ano é uma delicia caminhar, porque a gente não fica suando e a paisagem está estonteantemente linda. O outono sempre foi minha estação do ano favorita aqui. Mas com o tempo aprendi a gostar de todas, até do longo e tórrido verão, que está cada vez mais longo e mais tórrido. Aprendi, antes tarde do que nunca, a apreciar a lado bom de tudo.

Com a pandemia acrescentei muito mais coisas na minha lista de afazeres. Outro dia o Uriel falou pra mim, ah, mas você não precisa fazer tanta coisa se isso tudo te cansa ou te estressa. É verdade. Mas estou numa vibração de tentar fazer tudo o que posso, porque a areia do tempo está escorrendo rápido e comecei a ver o que nunca tinha visto antes: a finitude. Então cozinho comidas veganas, faço fermentados, asso pão de fermentação lenta, desidrato legumes e frutas, planto e germino sementes, e enquanto faço tudo isso escuto livros que pego da biblioteca pública ou compro no audible. E leio livros no kindle, alguns no papel quando tenho a chance. E escuto podcasts, leio inúmeros artigos, me interesso por JEDI, meditação, feminismo, política, tanta coisa pra aprender e praticar. E ainda faço voluntariado. No futuro posso olhar pra essa época e talvez dizer que foi a mais produtiva da minha vida. E o futuro nem está tão distante assim.

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o passado não condena