os gosmentos & os craquelentos

*

A reunião era para discutir e decidir a implementação de uma seção nova de links em todas as páginas, de todas as pestes, de todas as culturas. A página aberta na tela, a servir de exemplo, era a de um tipo de ácaro chamado de San Jose scale. Por causa da foto do bicho, estava difícil prestar atenção no que fosse, senão naquela imagem de um tronco de árvore coberto de escamas-vivas. Me fazia lembrar uma perna gangrenada, cheia de feridas purulentas. Só de lembrar, sinto calafrios, arrepios, coceira na cabeça e me pego rangendo os dentes e fazendo caretas de asco e horror.
Essa é uma parte bem chata do meu cotidiano de trabalho, vira e mexe dando de cara com fotos de larvas, ácaros, insetos, fungos, pestes vertebradas e invertebradas, que me fazem saltar da cadeira, ou fechar os olhos num susto e nojo. Os scales são os que me dão coceira. As larvas me dão enjôos, e seus ovinhos me fazem murmurar sons abafados de repulsa e sofrimento. Mas ninguém mais parece se importar com essas imagens – nem no grupo da web, nem no grupo dos escritores técnicos. A perspectiva de que um dia eu também vou me acostumar, me conforta.
Meu trabalho, que se estende numa escala realmente ampla, pode ser resumido basicamente como o de transferir para a web, as publicações técnicas e acadêmicas sobre gerenciamento integrado de pestes. Muita coisa eu adoro fazer, outras nem tanto. Uma das coisas que eu gosto de fazer é atualizar uma seção que eu montei para a assessoria de imprensa divulgar seus artigos. O que eu realmente não gosto é receber o material para mais uma atualização, com um press release de praxe e uma foto em alta definição de uma fruta toda podre com uma lesma melequenta saindo lá de dentro, toda garbosa e em destaque.

  • Share on:
Previous
welcome!
Next
o melhor momento
  • Fer, você trablaha tambpém com uma/um librarian?
    Um Centro de Documentação , claro.
    Mas essa catalogação e refer~encia e normalização (normas técnicas pra retrieval ) ajuda basta´nte, né?
    beijocas e quando puder me diga.
    Sei que aqui há muito ciúme das librianas com os webworkers.
    Vá entender.
    Espero que aí não. beijos

  • Fer,
    só de ler já estou tendo um treco. Tenho horror a insetos, larvas e outras coisas ainda mais nojentas. Já cheguei a desmaiar porque uma barata passou roçando o meu pé. E os documentários do Discovery e National Geografic não são meus programas favoritos.

  • Isso me fez lembrar dos ovni’s que eu encontrei limpando algumas alcachofras do almoço da Pasquetta.
    Ecas triplas pr’aquelas larvas nojentas!
    Boa sorte, Fer, mas cuidado: você sabe que líquidos não combinam nadinha com teclados. 😉

  • acho que estou precisando de alguma espécie de tratamento:
    tua descrição foi tão boa que fiquei com vontade de ver as tais fotografias.
    mas veja o lado bom, são estes seres que colaboram para a existência da tão propalada “biodiversidade”.
    ou podia ser pior: imagina uma página dedicada a algo como “sonetos de Augusto dos Anjos ilustrados”?

  • Fer, eu nem sabia que existia ácaro que atacava plantas… Só sei que eles são a principal fonte das minhas alergias, portanto, tenho ódio mortal a essas criaturas. Nem quero ver a foto, apesar de ter ficado curiosa pela sua descrição, he he he.
    bjs

Deixe uma resposta para Leila Cancelar resposta

o passado não condena