it’s [not] a hallucination

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Vou publicar um post em regressão, porque no dia não consegui escrever, só consegui falar e escutar. Mas no futuro quero poder lembrar exatamente como me senti nesse dia. Tinha muita gente dizendo, calma vai dar tudo certo, e eu cética respondendo, só sossego depois do resultado. Mas nem em pesadelo cogitei que o resultado seria o que foi. Era uma piada, de mal gosto, impossível de acontecer. Fui votar logo cedinho e não acompanhei nada pela tevê, só espiei noticias pelo Twitter durante o dia. As urnas fecharam na Califórnia às oito da noite e a coisa já estava esquisita. Fui ver um capítulo da série The Durrells in Corfu, quando voltei pro Twitter a situação tinha evoluído de estranha pra desesperadora e deprimente. Fui afundando, como alguém afunda num pântano, incrédula, pesada, triste, aquilo não podia ser possível. Fui tomar banho na esperança de uma virada milagrosa, voltei, a situação só piorava. Quis mandar um  texto pro Uriel, não consegui. Li tweets até entender que a palhaçada era real. Fui dormir pesarosa, ainda pensando lá no fundo, quem sabe um milagre acontece enquanto eu estou dormindo. Não aconteceu. Como sonhar que meu pai ainda está vivo, que foi um erro, ele não tinha morrido. A gente acorda pra realidade sempre. Acordei pra realidade de um governo que não vai me representar. Os anos de ouro acabaram, voltamos dez casas no jogo. O dia seguinte foi um dia pesado, todo mundo chateado, deprimido, gente chorou, eu tive dor de cabeça, esqueci de buscar o peixe no Co-op, estava abismada,. furiosa, decepcionada, angustiada.

Depois dos primeiros dias sentindo todos os medos possíveis, chorando com relatos de agressões e racismo, com o estômago embrulhado, comecei a pensar em maneiras de agir, de ser mais proativa politicamente. Apesar da tristeza de pensar que acabou o sonho de viver num país liderado por um presidente que me representa e a angustia de ver todos os benefícios conquistados voando pela janela, fui lendo todas as infinitas opiniões, cheguei [acho] ao ponto de que simplesmente tenho que aceitar o triste fato. E arregaçar as mangas pra ser oposição [mais uma vez]. Já colei na senadora democrata que ajudei a eleger, Kamala Harris. E vou colar em outros políticos democratas que terão que nos ajudar nesses próximos quatro anos. Li muita coisa legal, ouvi algumas opiniões diferentes, como a do meu marido que tem uma visão ponderada de que devemos tentar nos unir, mesmo numa incomensurável tragédia como essa. Estou chocada com a falta de ética e a desonestidade dessa campanha política. Não vou chamar esse sujeito de presidente, não vou ter orgulho, não vou aceitar nenhum absurdo que ele queira implementar. Também não vou imigrar pra lugar nenhum, já imigrei pra cá e é aqui que quero e vou ficar.

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when autumn leaves start to fall
  • Naquele dia, foi a primeira notícia que vi na televisão, de manhã. Desliguei a TV e fui tocar a vida pra frente, com a cabeça a mil, me perguntando como as pessoas conseguem, em pleno século XXI, apoiar uma criatura que prega o ódio e o retrocesso…E pensar que no Brasil corremos o mesmo risco.

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o passado não condena