Now, Voyager

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Foi uma viagem de trabalho, ficamos hospedados e fizemos reunião no navio histórico Queen Mary. Apesar do navio inglês estar aposentado desde 1967 e ancorado na cidade californiana de Long Beach, para mim foi como fazer uma viagem, só que no tempo. Lembrei de tantos filmes que vi, com cenas no transatlântico, casal no deck, vento marítimo, vestidos longos esvoaçantes. O Queen Mary foi construído e teve seus dias de glória nos anos 30. Transportou soldados durante a guerra e depois retornou a mais vinte anos de viagens cruzando o Atlântico, entre EUA e UK. Tivemos numa festa na suite do W. Churchill, que era um apartamento com dois quartos, dois banheiros, sala, cozinha, cheio de armários, porque o povo rico ficava trocando de roupa a beça. Ficamos sabendo de outra suite com cinco quartos! Muito luxo! No museu, onde entramos nas máquinas no fundo do navio, tinha um mural com posters contanto histórias. Não pude ler todas, mas numa delas anos depois, contada pela pessoa, que quando menina viajando na segunda do navio classe segue o pai, famoso por entrar de penetra nas áreas da primeira classe. Ela vai nadar na piscina da primeira classe, se afoga ligeiramente e é puxada da água por um homem. Quando ela olha pro homem que a tirou da água, era o Johnny Weissmuller, o famoso Tarzan do cinema na época! Salva pelo Tarzan!

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cof cof

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Alguém engasgou na mesa e eu quis ser solidária dizendo que eu também engasgo toda hora, até com meu próprio cuspe. Contei umas coisas engraçadas e disse, sabe quando você tá gritando com seu marido e engasga no cuspe? E alguém respondeu—eu nunca grito com o meu marido. Olhei pra pessoa e lembrei imediatamente do dia em que recebi uma ligação dela, achei que era coisa de trabalho e quando atendi fiquei “alô fulana, alô fulana, alô fulana” e só ouvia uns barulhos estranhos ao fundo. Era obviamente um “butt call”, uma ligação acidental. E lá no fundo era ela, a que não grita com o marido, gritando histericamente com todos os pulmões coisas como “i’m the boss here, my house my rules!”. Fiquei chocada e envergonhada, escutei a gritaria por uns minutos e desliguei constrangida. Um barraco, mas não devia ser com o marido, vai ver era com o filho, porque com o marido ela não grita.

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porta na cara é pouco

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Tô trabalhando em casa, batem na porta:

—olá, somos missionários!

—to ocupada agora, trabalhando.

—podemos voltar outra hora?

—NÃO!

[bater na porta dos outros às duas da tarde pra falar de religião. é demais!]

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feriadão com chuva

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the vintage on the desk

Voltei pro trabalho depois de vários dias doente e ganhei—um pomelo gigante, vários grapefruits, muitos limões rosa e uma kitchen aid vintage.

Ao invés de ir ao supermercado comprar ingredientes, como sempre faço, decidi ir num restaurante mexicano em downtown e pedir crispy tacos to go. Sempre que faço essas coisas fico meio deprê e penso como comer fora aqui nos EUA é um troço agressivo. Comida pesada, feita com ingredientes de má qualidade, calorias vazias, muitos aditivos. Não é o comer fora festivo, mas o comer fora rotineiro. Um contraste imenso com a delicadeza de se cozinhar em casa.

Se um dia você ler uma notícia—mulher morre soterrada por pratos, pode ter certeza que a mulher morta sou eu.

Quando falei a idade do meu filho, a médica perguntou se eu tinha netos. Então, passei pro outro lado, pro grupo que tem netos ou fala de netos. Só que eu ainda não tenho netos, só tenho filho.

Lindo essa gente andando descalça em casa no inverno, mas se eu [véia] ficar sem meia, morro congelada. Deixei a manteiga fora da geladeira de um dia pro outro pra fazer o bolo que pedia ela em temperatura ambiente. Fui usar vinte e quatro horas depois e a manteiga ainda estava dura. A temperatura dentro da minha casa fica naturalmente em 15ºC durante o inverno, subo pra 18ºC quando estou em casa.

California, onde tudo é 8 ou 80. Vocabulário  para 2017—sai a palavra “drought” entra a palavra “flood”.

Eu não sinto saudade de nada, muito menos de carnaval. Mas lembro que nessa época íamos ao sítio da minha tia e dela eu sinto saudade.

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⎜indivísivel ⎟

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Chorei o dia todo por causa das noticias do veto aos refugiados e imigrantes. O que todo mundo tá dizendo é, estou estressado, preciso parar de ler notícias. Mas como parar? Ficar desinformado e passar pro time dos alienados ignorantes? Não! Educação e informação são necessárias.

Sinto a situação aqui nos EUA está mais ou menos assim: todo dia um passo pra trás. Ou dois. Ou três. logo estaremos em 1930. Holocausto sem judeus, black history month sem blacks. Quem precisa de série da Netflix quando a realidade é muito mais canastrona e escrota.

Daí fiquei doente, uma gripe. Ainda estou.

De molho há dias, ando passando o tempo vendo documentários e filmes. Revi In the Mood for Love pra analisar os vestidos chineses da década de 60. Tinha me esquecido como esse filme é lindo!

Aprendi muito sobre vinhos em janeiro.

Meu chefe me deu laranjas. Minhas vizinhas me deram tangerinas.

Mirei nos ratos e acertei um espantalho. #ops

The Presidential seat is empty.

Barack Obama please come back, and bring some dragons with you!

Deeds not Words!

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long are we waiting awakening

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Nós caminhamos por zilhões de motivos diferentes e nos juntamos por um mesmo objetivo—todos nós queremos ser ouvidos. Uns estavam mais zen, outros mais preocupados, outros com raiva. Eu ainda estou na categoria dos enraivecidos, mas estou melhorando. Conversei com muitas pessoas nos últimos dias. Concordamos que saímos da passeata das mulheres nos sentindo bem melhor. A passeata que juntou milhões de pessoas ao redor do mundo, passeata pacífica, colorida, alegre, alto astral, criativa [os cartazes estavam maravilhosos]. Sem querer acabei vendo aqui e ali nas redes sociais, opiniões de arrepiar os cabelos. Uma fulana estava criticando as mulheres brancas que participaram da passeata na Austrália [onde ela vive] porque lá elas não precisam reivindicar nada, pois ninguém faz assédio sexual com elas, elas ganham salário equivalente ao dos homens [really?] e têm seguro saúde. Então esse supra-sumo da falta de altruísmo classificou a passeata australiana inútil, já que as mulheres de lá não precisam protestar nada [será?]. Não consigo entender uma cabeça encarcerada nesse grau de ignorância e egoísmo. Se não precisa protestar onde se tem benefícios, vamos todos acabar vivendo num mundinho triste, sem solidariedade ou empatia. Minha cabeça quase explodiu com isso. É muito deprimente. Depois vi machões brasileiros se auto intitulando liberais dizendo aqueles chavões altamente ignorantes—por que não foram então votar [fomos!], tem que aceitar o resultado da eleição [sério?], ele ainda não fez nada de errado [OMG!], essas feministas americanas precisam ser colocadas num manicômio [WTF!]. Que tal isso em pleno século 21? Meu marido deu risada quando comentei isso com ele e respondeu—essa gente está bem desinformada.

Falta informação, falta cultura, falta visão, falta pensar no outro, falta empatia, falta educação, falta saber a hora de admitir que as coisas estão mudando e aceitar que às vezes é melhor primeiro olhar e escutar, do que somente vomitar todo e qualquer tipo de opinião. Falatórios irresponsáveis assim é justamente o que não queremos mais.

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[ fuck this shit! *]

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The Women’s March — Sacramento
*poster favorito avistado durante a passeata!

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o passado não condena