ways of seeing

*

Para nós, pessoas do século 20, o mundo como conhecemos já não existe mais. Tudo o que crescemos considerando como o normal, já não é mais. Cinema, televisão, rádio, jornal, revista, fotografia, livros, telefone, cartas. Escrever com caneta, escrever na máquina, telefonar do fixo ou público, revelar fotos, folhear revistas, recortar imagens, fazer colagens, depender dos livros e da biblioteca para informação, ou dos jornais ou redes de tevês. Quando vi John Berger no documentário da BBC de 1972—Ways of Seeing, me pareceu que ele estava falando de um outro mundo, um outro século. E estava mesmo. A sensação é de que nada é mais o mesmo, que vivemos uma revolução sem precedentes, e que daqui pra frente quem ainda não se ajustou ao novo vai ficar para trás de uma maneira brutal. Vai ficar uma pessoa fora do seu tempo. Felizmente essa não serei eu. Nasci na metade do século 20, talvez viva até a metade do século 21 e ninguém, asseguro, vai poder me chamar de defasada, desconectada ou por fora.

Adoro tudo o que é antigo, amo os filmes do pre code de Hollywood, acho a moda do inicio até o meio do século 20 maravilhosa [embora entenda que devia ser tudo o máximo do desconforto], adoro ver imagens vintages, olhar pra trás, pra história, com curiosidade e interesse. Mas meu mundo é no século 21, com todas as modernidades e confortos que esse mundo pode me proporcionar.

A sensação mais forte, porém, é a de que apesar de todo esse desenvolvimento vamos fatalmente desbarrancar. Não sinto que o futuro será muito brilhante. Sinto que será sim bem diferente. Pro futuro que estou tentando visualizar agora, o século 20 vai parecer um sonho, um filme, com um roteiro bem ingênuo e muito mal escrito.

  • Share on:

[pisquei]

*

Estava no trabalho olhando pra um bloco massivo de HTML enquanto escutava o podcast de um programa de rádio, onde no final a apresentadora diz  “happy holidays to all our listeners!”. E me fez pensar que o tempo passou acelerado, um dia eu estava no trabalho, olhando para blocos massivos de HTML, de repente estava no holiday break e numa piscada estava novamente no trabalho, olhando pra um bloco massivo de HTML, como sempre. Como se a minha vida acontecesse quase toda neste lugar onde trabalho, onde venho todo dia dirigindo meu carro pelas estradinhas,  onde sento na frente do meu computador e olho pros códigos,  vou e volto pra cozinha, bebo água ou chá, vou e volto pro banheiro, falo com a minha mãe pelo telefone, caminho sozinha ou com amigas, converso sobre comida durante o almoço, fofoco com meu chefe ou apenas converso sobre coisas da vida, olhando pra ele por cima dos monitores. Inverno, chuva, frio, primavera, flores, pólen, verão, calor, calor, outono, folhas douradas, plin plin, plin plin, plin plin.

  • Share on:

call letter blues

*

Primeiro dia de volta ao trabalho, fiquei ouvindo rádio–notícias e música. Usando  agora o meu Bose Zen, porque minha meta para este ano é ficar ZEN. Todas as conversas ficam abafadas. Queria mesmo não ouvir nada, mas. Tudo bem.

E hoje foi o último “bom dia” do ano que dei pro grosso que ainda recebeu um “feliz ano novo” de extra e retribuiu com um grunido. Não estou mais pra essa gente. Ponto final.

Se eu dizer que é janeiro de 2017 e estou ouvindo Dylan, capaz de ninguém acreditar. Estou ouvindo Dylan desde a década de 70. Acho que até lembro a primeira vez que ouvi Dylan, era Lay Lady Lay.

Tenho cinco minutos e queria dizer que meu dia foi calmo, choveu muito, não caminhei e  até passei frio. Estou vestindo minha blusona listrada favorita e um lenço de flores que comprei numa thrift store [se morasse no BR iria ter que dizer “brechó”]. Estou de calça skinny e botas de cano alto, porque está chovendo. Esse é o uniforme dos dias chuvosos, todo mundo veste calça com bota. Detesto ser como todo mundo, mas hoje estou. Com exceção do lenço, que ninguém, ninguém, ninguém consegue me imitar.

 

 

  • Share on:

[penúltimo]

*

Desencanei mil por cento disso já faz uns anos. A última coisa que me preocupa na passagem do ano é roupa. Sempre tenho algo e não saio pra comprar nada. Acho um saco tudo isso. No ano passado usei uma saia longa do ano anterior [que foi nova], uma blusa linda mas velhíssima e uma outra de lantejoulas que era nova. Amanhã não sei. Tenho uma túnica e um casaquinho que nunca usei. O resto vai ser velho mesmo. Também não vai ter uvas brancas nem romã. Na verdade nem sei onde vou jantar na passagem do ano. No dia primeiro farei almoço em casa, um presunto, purê de batatas e salada. É o que o meu filho quer. Mas hoje, que é apenas o penúltimo dia do ano, tem torta de ricota e polenta, salada de folhas verdes com molho de kinkan e galettes de alho poró e batata que fiz pras receber minhas amigas J. e K. E vinho, muito vinho!

Debbie & Carrie

Minhas amigas são pessoas super simples. Uma delas acabou de perder um cachorro adorado, fez eutanásia. Ela me ensina muito sobre altruísmo e caridade. A outra tem uma filha e quatro netos vivendo em North Dakota. Ela tem histórias incríveis da família californiana vivendo no meio do nada, agora um nada coberto de gelo. Posso afirmar que oitenta por cento da nossa conversa foi sobre política e o desespero do que está pra vir. Mas nos despedimos desejando que 2017 seja fenomenal, porque de uma maneira ou de outra será.

O ano começou com a morte do David Bowie e eu pensei que não fosse superar tamanha tristeza. E o ano termina com as mortes da Carrie Fisher e da Debbie Reynolds, que eu não sei como vou superar tanta tristeza. Uma mãe que não aguentou a morte da filha. Um amor de mãe sem fim, imenso, incondicional, um amor que eu achava que não fosse possível existir.

  • Share on:

[all I want for Christmas is you]

*

O melhor presente que recebi no Natal foi meu filho ter ficado aqui com a gente, das 5 da tarde do dia 24 até as 3 da tarde do dia 25. Ele e a cachorra Alaska. Conversamos, jantamos, conversamos, abrimos presentinhos, conversamos mais, dormimos, acordamos, conversamos, tomamos café, caminhamos, conversamos, almoçamos, conversamos e fomos ao parque de cachorros. Amanhã ele vai acampar nas montanhas com a cachorra. Deusdocéu como é fofa essa cachorra!

Tanta coisa que não escrevi este ano e nos anos anteriores, porque era muito particular ou porque não tive tempo nem vontade. Meu registro é aqui. É aqui que vou voltar sempre e rir ou chorar ou me espantar ou simplesmente não me lembrar que vivi o que escrevi.

A vida é cheia de reviravoltas, você passa uma infinidade se achando a vilã da novela e de repente você percebe que não era nada daquilo, a vilã era a personagem que posava de boazinha. Sem falar nas fachadas, que podem enganar alguns por um tempo, mas não vai enganar todos o tempo todo. Muita coisa que eu vejo e percebo, guardo pra mim. Shiu.

Outro dia vi agendas 2017 pra vender e meio que me espantei. Sei que ainda existem leitores de livros, colecionadores de LPs, gente que revela fotos, escreve cartas, telefona de orelhão, mas pra mim isso tudo é coisa de um século passado.

Queria fazer uma lista de resoluções, mas isso não combina mais comigo.

vamos indo por aqui

  • Share on:

o passado não condena