it’s raining in Northern California

*

Tem chovido razoavelmente e ninguém ousa reclamar. Somos um povo desacostumado com chuva e é engraçado ver o desajeitamento do pessoal quando é pego pelos chuviscos ou aguaceiros. Começou a pingar água do teto da sala. Um lado do telhado tem problemas. Só descobrimos esses problemas quando chove, e como demora tanto pra chover tudo se acumula. Lá se vai muitos mils dinheiros pra consertar o problema. Dinheiro desperdiçado ou não. Meu talento é fazê-lo.

Por exemplo. Fiquei $95 patacas mais pobre para conseguir reentrar na minha casa, depois de ficar trancada pra fora. Aplausos para o pessoal da limpeza, que trancou a porta da garage por dentro. Eu entrei pra pegar coisas na geladeira e não consegui voltar pra dentro da casa. Uriel e Gabriel cada um numa cidade, duas horas de distância. Graças à ajuda dos vizinhos chamei o chaveiro, paguei e entrei em casa. Perdi minha hora do almoço nessa pataquada. Felizmente não tinha nada cozinhando no fogão. Agora tenho uma chave escondida dentro da garage, coisa que ja deveria ter feito antes. Mas antes tarde do que nunca.

Você pode se considerar um habitué quando o atendente do café completa a sua frase fazendo o pedido [sempre o mesmo, é claro].

Desencalhei um baú de blusas de lã e usei muitas—uma da Benetton que comprei no meu primeiro inverno no Canadá [no primeiro e único boxing day 1992]. Usei por 5 invernos lá e desde então frequentemente, depois esporadicamente. Já costurei buracos, dobro as mangas que estão esgarçadas. E continua útil. Virei a velha que usa roupa que comprou quando era jovem.

O sósia do meu marido jovem apareceu outro dia, vindo de uma reunião em Sacramento, com o blaser mais horripilante que eu já vi na vida. Dois números maior do que o dele, sem lapela com um decote em V abertíssimo, ombreiras, tecido brilhoso azul com uma trama de listra. Por baixo do fatídico blaser, uma camiseta polo listrada branca e azul. Ri, quietinha, por horas. Nem o moço original cometeria um crime fashion dessa magnitude!

  • Share on:

waiting for a miracle

*


2018 foi um ano de certezas e grandes mudanças pra mim. Eu segui em frente com aquela atitude de quem sabia o que estava fazendo. Mudei tanta coisa, foi um ano produtivo, de crescimento. Aprendi tanto, fiz tanta coisa nova, fui positiva. 2019 já não sei. Não quero dizer que estou pessimista, mas estou apreensiva. Com muita razão. Hoje o dia começou triste e tenso, no final das contas melhorou, mas sabemos muito bem o que nos espera pela frente. Minha mãe disse que e está pedindo por um milagre. Eu também, eu também. Que seja o que tiver que ser. Mas quero muito ver esse milagre se realizar.

✨Feliz ano novo!✨

  • Share on:

green envy

*

Tivemos o Thanksgiving, o primeiro no qual não servi nenhum queijo, e no qual tivemos peru mas eu não comi. E nem tive vontade. Essa experiência com um pé no veganismo me fez perceber o quanto é fácil ser vegetariano. Eu era feliz, na ignorância, e não sabia. Mas não estou arrependida, só estou triste que temos que fazer isso para não participar desse sistema doentio. No natal não teremos peru.

Minha amiga tirou o leite da cabra dela [que se chama Fitch], fez queijo e trouxe pra mim, de presente. Foi o primeiro queijo que comi em quatro meses. Foi delicioso!

Minha coleguinha disse que eu passo tranquila por “branca” principalmente no inverno, quando perco o “bronzeado”. Gostei de saber disso. Rsrs.

Fui perguntar para o mocinho como estava a família dele. Eles perderam TUDO no incêndio de Paradise. Daí ele falou por um tempão e me deu muita tristeza. esse incêndio nunca vai se apagar das nossas memórias.

Estava muito determinada a pegar os limões numa árvore do outro lado da rua do meu trabalho, que emprestei o picker da minha vizinha e levei comigo. Mal coube no carro, fui pro meio da rua com ele, mas valeu valer a pena. São limões Meyer!

Engraçado admitir isso, mas fico sempre muito bem usando cor de rosa.

Ouvi o Livro da Michelle Obama. Ouvi Harper Lee e Ray Bradbury. Agora estou ouvindo a Elena Ferrante. Estou apaixonada pela biblioteca pública e pegando audio e e-books nas bibliotecas de Woodland e Davis.

Hoje estou me sentindo tristíssima. Perdi até o apetite. Quero superar isso, porque não há nada que eu possa fazer, além de dar apoio moral e carinho. Estar presente da maneira que eu puder. May all beings be free of all suffering.

Está frio na Califórnia.

  • Share on:

[ os dias estão esfumaçados]

*

me by gabe

Agora que achei os audiobooks na biblioteca pública, faço todos os serviços tediosos ouvindo livros. Terminei o Go Set a Watchman da Harper Lee, narrado pela Reese Witherspoon. Comecei a ler Fahrenheit 451 narrado pelo Tim Robbins. No audible estou terminando de ouvir Becoming Michelle Obama, lido por ela mesma. <3

O sósia do meu marido jovem tem sobrenome de escritor americano famoso. Pensando que era apenas uma coincidência, como o meu, perguntei nonchalant e ele é sobrinho neto do cara!

Já tenho uma receita de sobremesa pro jantar de thanksgiving. One down! Agora preciso de pelo menos umas outra cinco com legumes e verduras pra acompanhar o peru que meu filho vai fazer e eu não vou comer! iurru!

Meu chefe deu a ideia de comprar o jantar pronto e até que pensei no caso.

1. comprar jantar de thanksgiving [vegan ainda por cima]

2. deletar food blog

Perdi 10 quilos e pela primeira vez na vida [que eu me lembre] que vesti uma calça que era justa na cintura e tive que colocar um cinto pra ela não cair.

O outono está acontecendo lá fora, entre a fumaça dos incêndios, e nem estamos prestando atenção, porque não estamos podendo caminhar pelas ruas normalmente. Tá tudo bagunçado.

Troquei de roupa quatro vezes e fui vestida como uma mendiga.

  • Share on:

to see things as they really are

*
my Vipassana on a plate
my Vipassana on a plate

Dez dias desconectada do mundo, dez dias sem falar, sem ler, sem escrever, sem pesquisar, sem ver previsão do tempo, sem tirar fotos, sem calcular quantos passos andei, dez dias sem google, dez dias longe do celular que ficou trancado num cofre, dez dias sem cozinhar, sem fazer yoga, sem dirigir, sem nadar, dez dias sem saber o que está acontecendo fora do meu espaço, dez dias em silêncio, dez dias de horários rígidos, acordando às 4am, dez dias ouvindo o mestre dizer “start again, start again”, dez dias sem conversar com meu marido, sem contar as coisas do dia, dez dias sem o estresse das notícias, dez dias tomando banho somente nos horários determinados, dez dias sem ouvir música, dez dias no mais absoluto silêncio.

Dez dias conectada comigo mesma, dez dias meditando em grupo ou sozinha, dez dias olhando o céu, as nuvens e as estrelas, dez dias comendo comida vegetariana levinha e gostosa que eu não cozinhei, dez dias bebendo chá, dez dias ouvindo os pássaros, dez dias olhando os esquilos, dez dias falando mentalmente [ou sussurrando] com as árvores, dez dias pulando buracos de gophers, dez dias ouvindo o pica-pau trabalhar dedicadamente estocando previsões pro inverno, dez dias ouvindo os sons dos insetos e dos acorns caindo das árvores, dez dias subindo e descendo morros, dez dias respirando o ar gelado da manhã, dez dias vendo o sol nascer na caminhada pro café da manhã, dez dias imersa numa enxurrada de pensamentos, dez dias deitada na pedra, dez dias olhando pra dentro do meu coração e da minha mente. Dez dias caminhando com atenção plena e vendo coisas que normalmente não teria visto, dez dias coletando delicadezas que vi no chão, dez dias subindo e descendo as escadas de degraus larguíssimos, dez dias respirando, respirando, respirando, dez dias inteiros, de horas exatas, sentindo cada segundo, cada minuto, dez longos dias, intensos, lindos, inesquecíveis.

  • Share on:

ainda é verão? [sim, é]

*

Estou fazendo pequenas e grandes mudanças na minha rotina e na minha vida. 2018 vai ser o ano que vou lembrar sempre como o ano do desafio aceito. E completo. Subir a montanha, posso. Parar de tomar café, posso. Eliminar animais da dieta, posso. Fechar a boca [metaforicamente e literalmente], posso. Fazer pizza sem queijo, posso. Meditar, posso. Descascar 543221 dentes de alho, posso. Ficar sem celular, sem tirar fotos, sem ler, sem escrever, bom, this remains to be seen.

Quase chorei quando ouvi de dois fazendeiros que aquele dia era o último deles no farmers market da minha cidade. E me deu um pequeno pânico––não comi pepino o suficiente ainda! Então comprei um monte, de diferentes variedades. nosso farmers market é sazonal, só acontece no verão. O pessoal que vende lá só tem produto pra uma estação. Depois vai cuidar da terra, plantar, cultivar. por isso tudo lá é tão bom.

Um moço começou a trabalhar no meu prédio, é o novo coordenador de um programa. Vi ele na cozinha na hora do almoço, ficamos conversando [ele fala pra caramba!]. Desde o primeiro minuto que olhei pra ele fiquei com uma sensação estranha de familiaridade, sei lá, muito estranho. Depois que o moço foi embora caiu a minha ficha: ele é muito parecido com o meu marido quando jovem. Até mandei a foto do moço pro meu marido, pra ter certeza que não estou louca. O marido concordou que tem uma parecência mesmo. Tô bem ferrada, porque vou ficar vendo o meu marido jovem todo santo dia, isso vai certamente pirar com a minha cabeça! Tomara que ele seja bem chato.

É praxe no meu trabalho a gente fazer uma “meal train” toda vez que alguém saí de licença médica. Desta vez estamos fazendo isso para uma das minhas amigas. Além de fazer a comida em duas datas, estou levando a comida que outros prepararam pra ela todos os dias. Ela mora em outra cidade, num pequeno sítio no topo de um morro. São 40 minutos de viagem pra ir e outros 40 pra voltar. Mas não tem problema, porque pelo caminho vou vendo campos de tomate, pomares de nozes e amêndoas e ocasionalmente [por sorte] um veadinho e muitas lebres.

  • Share on:

serious business

*

Minha coleguinha é quarta ou quinta geração de açorianos na Califórnia. O sobrenome dela é Parreira, que eu já traduzi pra ela como grapevine, porque ela achava que era pear tree. Quando ela fala o sobrenome com sotaque de americana o resultado me dói os ouvidos. Fico confusa com o fato de que a pessoa não pronuncia o próprio sobrenome da maneira correta. Os sobrenomes portugueses são mesmo difíceis pros americanos, é por isso que não uso o meu Guimarães aqui. prefiro ser apenas Rosa [Rousa] do que Goimareins Rousa.

Minha distração enquanto trabalho é beber água. Digo distração porque bebo água distraída. Estou focada no trabalho e nos podcasts que escuto sem parar. Por causa da política não escuto mais NPR. Tava chateada porque a NPR é simplesmente maravilhosa, mas daí entrei no mundo dos podcasts, ted talks, palestras no youtube e estou felicíssima. Aprendo tanta coisa, é tanta coisa pra ouvir, é um troço sem fim. Você vai pulando de um pro outro. Além de beber água, ouvir podcasts, eu caminho. Agora que está ridiculamente quente, eu faço rotas destrambelhadas dentro do prédio, caminho entre cubículos e escritórios de vidro, todo mundo me vê. minha amiga diz—muito bom, Fernanda!

Gentalha na minha vizinhança que colocou placa do Topato Drump na frente da casa durante as eleições, eu marquei com tinta vermelha na minha lista mental e agora quando passo em frente, atravesso a rua e falo entre-dentes: GENTALHA. Não quero saber as razões. Não perdoo, não quero nem pisar na calçada. Sou rancorosa por bons [na verdade, péssimos] motivos.

Me machuquei e não estou fazendo yoga pela manhã, meu iwatch vem então me dar bronquinha, mandando mensagem—normalmente você é mais ativa e já está com seus círculos fechados a essa hora. arrume tempo pra estar ativa hoje! Mas vejam só que audácia! Dá licença, meu querido??

  • Share on:

o passado não condena