Carlos, vem comigo

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Carlos, vem comigo. Sente o calor desse sol. Não está surreal? Vê que lindas essas flores. Elas estão resistindo.

Carlos, vem comigo! Olha essa casa linda, com a grama e a cerquinha. Ali mora um gato. E naquela ali tem uma cachorra muito mansinha. Eu sou a caminhante amiga de todos os gatos e cachorros da vizinhança.

Carlos, olha que bonito que está o céu. Aqui é sempre azul, o verão todo.
Carlos, vem comigo e olha essa casa com as roseiras. E o gazebo. Você está sentindo o calor vindo do chão? Carlos, aqui é onde eu moro, a minha vizinhança cheia de casas antigas, vem comigo que vou te mostrar.

Carlos, vem comigo ver a casa azul com o cachorro branco. Ele sempre late quando eu passo, que bobo! E olha as sycamores, os maples e os carvalhos. Essas árvores são centenários. Você está sentindo a brisa? Ela ajuda bastante nesse calor. Carlos, olha quantos gatos, nessa casa são sete e às vezes nove!

Carlos, vem comigo! Mergulha no azul, olha o céu e a água. Carlos olha o prateado das bolhas, e o dourado dos reflexos. Carlos olha como é bonito todo esse azul. E a água fria refrescando o corpo, sente Carlos. Sente também as ondas massageando as pernas e os braços. Vem, Carlos, desliza comigo, nessa luz da manhã, tudo azul, em cima e em baixo.

Carlos, sente comigo, vê o que eu vejo, anda comigo, nada comigo, vem comigo passar esses últimos dias nessa vida, pois um lugar muito mais bonito e perfeito te aguarda. E quero te mostrar só dessa vez como vivemos por aqui.

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a little misanderstanding

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Fui ao Brasil por duas semanas para ver três pessoas muito doentes na minha família. Quando voltei meu chefe me recebeu com flores e um cartão daquele tipo “we’re thinking of you” assinado por colegas do trabalho. Abri o cartão e li comovida muitas palavras queridas. Mas qual foi a minha surpresa quando vi que três pessoas escreveram “I’m so sorry for your loss” [wth?] e uma escreveu “happy birthday!” [whf?]. Eu, meu chefe e a coleguinha ficamos rindo a beça, porque faltou entendimento da situação nesses quatro casos, mas no último caso também faltou estar presente e ter um pouco de noção.

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[ wink ]

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wink
[Helena Perez Garcia]
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quase passou

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“I must go home periodically to renew my sense of horror.”
~ Carson McCullers

Sonhei que comia uns pedacinhos bem minúsculos de carne e a minha repugnância era incontrolável. Estou muito feliz por ter pulado fora desse circo de horrores. Nenhum gosto na minha boca [que nunca nem curti] vale tanto sofrimento alheio. Estou vendo Street Food e estou gostando das histórias pessoais, mas o jogo mudou pra mim de tal maneira que ficou impossível não perceber os animais. E sinceramente isso não tá mais divertido.

Um perfil no instagram começou a me seguir, fui olhar e a pessoa cozinha com insetos. Vi um prato cheio de larvas, outro com algo que parecia arroz com gafanhoto triturado. Fechei tudo horrorizada e repugnada, mas dividi o link com meus colegas de trabalho.

A conversinha foi mais ou menos assim:

eu—você quer trazer um queijo bem salgado [pra vocês] e eu trago os figos em calda na segunda pra gente saborear todos juntos?

pessoinha se fazendo de tonta—ah, preciso fazer bolachinhas neste final de semana, onde será que encontro sementes de……

eu—okay, vou pedir pra outra pessoa trazer o queijo e eu trago os figos pra dividir.

Caraleos, phoda-se então, né? [e não levei figo nenhum pra dividir com ninguém]

Meu chefe queria me trazer umas plantas e eu—minha casa é o San Quentin das plantas, entrou aqui, vai morrer.

Os tomates já estão plantados nos campos agrícolas da minha região.

Caminhar pra mim é o maior desestressante. Minha vizinhança é tão arborizada, com árvores centenárias e agora são tantas flores, é uma coisa inebriante. E ainda tem os gatos e os cachorros, pra quem eu sempre tenho uma palavrinha e um aceno.

Meu mantra tem sido—vai ficar tudo bem, com todo mundo.

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no final de abril

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Dirigindo até a casa da minha amiga, que vive no topo de uma colina em Winters, passei por muitos pomares de amêndoas e nozes com o chão forrado de flores de mostarda. Uma visão tão linda e não pude parar pelas estradinhas pra tirar fotos. Fotografei só na memória.

No caminho pro trabalho dirijo por uma estradinha e vejo um aeroporto com um hangar cheio de aviõezinhos amarelos, usados pra espirrar pesticida nos campos agrícolas. nhé. No caminho pro trabalho dirijo por algumas estradinhas e nelas vejo campos com vaquinhas, cavalos e, o mais fofo, cabritinhos pastando. Hoje vi uns tão pequenininhos e eles foram um raio de felicidade que iluminou o meu dia.

Cheguei no nível que quando alguém me pede “dicas” da Califórnia tenho um branco não sei o que dizer. Porque vivemos numa rotina casa–trabalho–casa, vida cotidiana, moro na roça, no final de semana faço trabalho doméstico, nem sei de nada, dsclp.

Estava com a impressão que iríamos passar do inverno pro verão, assim mesmo na bucha. Foi inverno na primavera, agora está sendo verão. Uma trapalhada climática.

Contrataram uma fulana que tem um blog de culinária. E é super sabe tudo. Voz altíssima. Não consigo mais terminar uma mísera frase nas conversas na mesa comunal durante o almoço. Mal começou e já cansei. Não quero pegar o primeiro lugar na maratona, só quero chegar no final, inteira. Talvez minha falta de competitividade seja a minha desgraça.

E quando alguém está vendendo um “peixe” que você nem consegue entender exatamente do que se trata? Me sinto feliz por não precisar vender o meu peixe e ficar divulgando o que faço profissionalmente nas internetes. Se tivesse, não sei como faria.

O praticante de mindfulness que quer vender o peixe da prática num falar incessante, sem ouvir e nem mesmo perceber o outro, não vai ter muito sucesso angariando simpatizantes. Porque exemplo vale muito mais o que palavras, não é mesmo?

Uma frase que americano fala pra absolutamente tudo e que ainda não vi brasileiro copiando traduzido literalmente—I’m so excited!

Acabou culinária pra mim, pois ontem chorei vendo um episódio de Chef’s Table por causa dos caranguejos.

Como explicar que estou com esse hematoma porque abri a porta do carro diretamente na minha própria cara?

Comprei dois vestidos, um tamanho 10 e o outro tamanho 8. Estou boquiaberta até agora!

Está sendo uma época de revoluções pra mim.

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Charlotte Greenwood demonstrating her flexibility at Metro Goldwin Mayer studios | Boris Lipnitzki | 1928
Charlotte Greenwood demonstrating her flexibility at Metro Goldwin Mayer studios | Boris Lipnitzki | 1928
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winter [spring break] winter

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Eu já tinha terminado de almoçar quando entraram na cozinha empurrando um carrinho com umas 50 batatas assadas embrulhadas em alumínio, mais todos os toppings possíveis, incluindo vegetarian chili. Despejaram tudo no centro da bancada e foi um sirva-se quem quiser!

São 8 vegetarianos no nosso grupo de trabalho, mas o coleguinha que está no caminho de desenvolver uma doença cardíaca antes de completar 40 anos pega no pé de quem?

—o que a industria dos laticínios te fez de mal?

—pra mim, realmente nada. agora, hold my beer……

Todo dia escuto comentários irônicos e passivo-agressivos. Tô pegando uma gastuuuraaaa ……

grrrrr!!

Comprei outro dia o livro da Samin Nosrat que estava na minha lista desde o lançamento, mas ainda nem abri. Fui primeiro ver a série dela na Netflix, assisti o primeiro episódio, FAT. Poxa, ela é fofa demais, demais, falando italiano, quero ser amiga dela. Mas fiquei só pensando—ela vai morrer logo, comendo essas banhas todas desse jeito. Infelizmente não sou mais a mesma. Fiquei muito incomodada com as cenas do corte do porco. Desculpa Samin, mas realmente não posso mais.

Normalmente eu ajudo a servir o jantar num abrigo para moradores de rua aqui da minha cidade, mas ontem fiz a comida. Eu e minha amiga cozinhamos para mais de cem pessoas. Achei muito difícil e um bocado estressante, porque a gente tem que improvisar com o que tem lá. Temos 2 horas pra pensar no menu com o que estiver disponível e preparar a comida. Todos os ingredientes são doados. Nós fizemos frango ensopado com molho de tomate e legumes, uma saladona de espinafre com tudo o que achamos nas geladeiras e servimos com pão. Sobremesa é sempre bolos e pastries variadas, às vezes uma fruta. Minha amiga queria fazer arroz mas não teve espaço pra mais uma panela no fogão. Os voluntários que vinham pra servir não apareceram, então cozinhamos e servimos. Não parava de chegar gente. Acabou toda a comida.

O clima primaveril se instalou no final de semana. Até eu estava ansiosa. O inverno volta amanhã.

Minha amiga russa contou que o 8 de março é feriado nacional na Russia e que todo mundo aproveita pra encher a cara de vodka. Muito mais autentico do que a palhaçada das rosas brasileira.

O Palmito narrow é basicamente uma versão barnabé xinfrim do Drumpts. Sad.

Se eu fosse imperatriz do mundo não deixava ninguém publicar nem foto nem nome de assassinos em lugar nenhum.

O silêncio é tão maravilhoso, estou nas nuvens!

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watching the wheels go round and round

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[quadra de boccia na frente da casa dos meus vizinhos]

Tem chovido pacas por aqui. Fui buscar os ovos na fazendinha e todos os campos agrícolas estavam alagados. Uma visão perturbante. Aqui é assim, se não chove, não chove mesmo. Se chove, chove até não poder mais.

Muita neve lá em Washington e acho que estamos pegando as rebarbas dessa friaca no oeste. Neste inverno usei blusas de lã que estavam mofando no armário há anos. Três semanas atrás guardei quase tudo, tive que resgatar tudo. Até lavei algumas, de tanto que usei!❄️

Emprestei o picker da minha vizinha, trouxe no carro pro trabalho e fui com minha amiga russa tentar pegar os últimos limões da árvore do outro lado da rua do meu prédio. Somos altas e o picker tem um cabo longo, pegamos uma sacola cheia, mas mesmo assim deixamos uns limões lá no alto pra trás porque pra pegá-los precisaríamos de uma escada. Concordamos que trazer escada seria um pouco demais.

Compramos um sofá na metade de dezembro. Ele chegou ontem. As pessoas compram sofá nessas lojas baratotais não só porque são baratotais, mas porque você leva o móvel na hora [ou entregam no dia seguinte]. Mas nós somos chiques e quisemos customizar, num sofá made in USA, com garantia de 50 anos, eteceterá. Haja paciência. O sofazinho que esse novo vai repôr tinha 17 anos e estava todo destruído pelo gato. Era um sofá cama da Ikea onde só o Uriel conseguia sentar, de tão desconfortável. Acho que progredimos.

Tô infiltrada em muitos grupos veganos/plant based e vejo muita coisa que me horripila. aqui nos EUA é o desespero de se igualar, de ter comida vegana nos fast foods da vida. Tem muita coisa boa, dicas legais, mas dá pra ver a tentativa deprê de replicar a dieta onívora. Outro dia uma pessoa colocou foto de um carrinho de um dessas lojas de 99 cents lotado de pacotes comida vegana processada. Os comentários que li eram––garota, onde é isso? também quero! 99cents, OMG!!

E eu 🙄 ––não é possível uma coisa dessas!!

Vi Beautiful Boy. o filme é bonito, mas fiquei muito irritada com aquele pai, aquela família de comercial de margarina. Sei lá, muito chatos, todos eles, inclusive o pobre menino lindo drogado.

Meu chefe mandou uma msg geral no slack dizendo––estou ouvindo o som vindo do headphone de um de vocês!

Adivinha quem estava ouvindo algo tão alto que o som “vazou” pela caverna??? sim, ele mesmo.

O cara é praticamente um milagre ambulante, sendo que não está surdo nem morreu de um ataque fulminante, dado que só se alimenta de porcarias, é uma nuvem negra negativa e vive estressado. Felizmente estou nos últimas dias desse pesadelo de 13 anos.

Muito chato ter um vizinho que acha que árvore é um estorvo que suja o chão e emporcalha o carro. Temos três árvores no nosso quintal que invadem a driveway dele e no ano que mudamos pra essa casa ele simplesmente podou tudo sem nos consultar. O Uriel ficou puto e reclamou. Este ano o sujeito veio avisar que iria podar por causa da “sujeira” [AFFFFFFF!!!!!!!] e mandou bala, como da outra vez. As árvores estão peladas de um lado e abriu uma luz intensa, porque elas são a nossa sombra! que gente mais burra, nem sei o que dizer.

Só existe uma explicação viável para aquela árvore de natal com luzinhas acesas na janela da casa em pleno fevereiro––toda a familia morreu lá dentro no começo de janeiro e ainda não descobriram os corpos.

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os bons [e maus] hábitos

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Está muito difícil acompanhar notícias do Brasil. E olha que estou entrando no terceiro ano do pesadelo Trump. Não tem como comparar. A vibração é diferente. Só sinto tristeza, pois entregaram o Brasil pros bandidos [e bandidinhos, daqueles bem chulés e estúpidos]. Todos pagarão a conta [menos os ricos, é claro]. Muito podre.

Agora estou na onda dos podcasts veganos. Tem muita coisa, nem tudo é bom, de qualidade. Muitos são uma conversa desorganizada entre amigos, com risadas descontroladas e berros, não gosto. Mas é um mundo muito interessante, muito cheio de nuances, estou nele por ideias. Minhas decisões já foram tomadas, não sinto nenhum arrependimento, nem acho que tenho que fazer melhor. Está bom como está, por enquanto.

Enquanto o tempo deixar, vou caminhar pela manhã e à tarde. Faço 50 minutos, no meio do dia de trabalho. E ioga, agora tem o remo, quando dá tempo. Estou obcecada em manter meu peso e me preparar para não ser uma idosa cheia de doenças. Se for pensar bem, em 23 anos terei 80 anos!

Estou atolada de trabalho, vou fazendo coisas e removendo camadas, um pouco por dia, daí vem uma avalanche, continuo firme, respiro, sigo em frente.

Tenho lido e escutado muitos livros. Esse foi um sonho que tive por muitos anos e estou realizando agora graças à tecnologia e as bibliotecas públicas das minhas duas cidades, que me proporcionam tornar isso realidade.

Muitas frutas cítricas no meu caminho. Peço e aceito. Não posso deixar passar essas oportunidades de inverno.

Esfriou, melhorou, vai chover.

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o passado não condena