duelo

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A mulher com o cachorrinho fofo estava vindo na minha direção e eu já tinha me armado com um elogio para fazer pro bichinho, mas ela foi mais rápida no gatilho do que eu e antes que eu pudesse dizer um “a”, disparou:

—what a cute outfit you’re wearing!

Fui pega de surpresa e só me restou dizer —thank you!

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way too many nabos

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Estou num país que está tentando remover um president corrupto e sem caráter.
E não estamos em 1992.

Se não houver impugnação, remoção e punição, os EUA perderão definitivamente a liderança no mundo livre e não serão mais um modelo de democracia.

Fiquei bem quase um ano sem ler a revista Bon Appetit no iPad. Nutro dia entrei lá e vi que removeram a interatividade da revista. Era a única que ainda valia a pena assinar por ser fácil de ler na versão digital. Agora virou apenas uma réplica da revista impressa.

Juntou essa desilusão com a minha repulsa progressiva por receitas com carne, então sem nem piscar disse goodbye old friend, see you in another lifetime, quando tudo será obrigatoriamente interativo e comer animais já esteja em completo ostracismo.

Noutro dia cheguei a conclusão que não existe mais salada só com verduras e legumes nos restaurantes. TODAS as saladas levam queijo ou algum tipo de carne [incluindo bacon e similares]. Ou pior, levam ambos, carne e queijo. Que belabosta isso!

Tem nabo demais dentro da minha geladeira.

“Siri, remind me to put the pickles in the fridge.”

She did.

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um tributo

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Eu e o Uriel estávamos caminhando pela calçada, de mãos dadas como sempre fazemos, quando um carro parou no meio da rua, um homem baixou o vidro da janela e falou:

––que bom ver que ainda existe amor no mundo e que os casais ainda andam de mãos dadas!

<3

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all things reconsidered

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Cliquei num link e li essa história muito divertida—mais cheia de erros do que de acertos, mas de qualquer maneira divertida. Olho pra trás e não sinto saudades de nada, somente da falta de preocupação que eu tinha. Tudo parecia possível, mas era complicado, o futuro era um lugar distante e incerto, mas com inúmeras possibilidades, e o presente era aquilo que eu tinha e vivia sem nenhuma habilidade de analisar nada. Hoje já me sinto muito mais capacitada, mas um pouco mais limitada, caminhando numa trilha mais fechada, mais curta, onde os problemas são um pouco mais complexos do que jamais imaginei que seriam. Daqui quinze anos posso ler o que escrevi hoje e pensar o mesmo, de como a minha visão de mundo mudou. Deve ser assim mesmo olhar pra trás.

Tivemos o outono mais quente de todos que consigo me lembrar. Está tudo diferente, as árvores sucumbiram mais cedo, talvez pelos dias de ventania que foram muitos. Tenho a impressão de que de agora em diante tudo será muito instável e imprevisível, ou porque estamos envelhecendo e vendo tudo por outro prisma, ou pela dura realidade das mudanças climáticas, ou pela combinação dessas duas coisas. Nenhum verão ou outono será igual a algum outro pelo qual já passamos. Tudo será novo, visto com olhos de iniciantes.

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estrelas

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Minha família passou por maus bocados neste ano. Enfrentamos o câncer da minha mãe, do meu irmão e da minha irmã. Minha mãe e minha irmã estão bem, dando continuidade à um pesado tratamento oncológico. Meu irmão morreu em agosto. Morando em outro país, meu desejo constante era o de estar mais perto fisicamente, mas tive que me concentrar na minha habilidade verbal e na força e positividade das minhas palavras pra ajudar a confortar os meus queridos. Toda essa vivência de doença e morte levantou um manto surreal que cobria a minha visão e revelou um novo mundo pra mim. Achei que estava razoavelmente preparada para o que estávamos confrontando, mas na verdade nunca estamos totalmente preparados para viver situações assim.

Quase tudo que acontece traz uma sensação de surpresa, principalmente o que acontece com relação às pessoas. Os coadjuvantes. Não me surpreendi com relação à como as pessoas temem os assuntos de doença e de morte. Como fogem, amedrontadas, achando que se conversar com você sobre essas coisas uma maldição vai se instalar ou a doença e a morte vão se espalhar como uma praga. Já estive do outro lado, também sem saber o que fazer ou o que dizer. Desta vez porém, pude perceber muito claramente essa dinâmica, observando a postura das pessoas que fazem parte da sua vida mas que mal conseguem articular uma frase clichê sobre doença e morte e já saem correndo, vão tomar um banho pra desinfetar, expurgar os demônios desse horror que ninguém quer experimentar.

O bom é que a surpresa também aconteceu da maneira inversa. Pessoas que surgem do nada pra te trazer palavras ou gestos maravilhosos, que te acalentam como um cobertor quentinho, seja através de vaso com flores deixado na sua porta, ou uma mensagem delicada, uma oferta de te escutar, um toque no ombro sem pressão, um cartão bonito que chega pelo correio.

Na semana passada recebi um cartão lindo, escrito com letra de mão caprichada, com palavras que me emocionaram e que diziam—estou pensando muito em você desde a última vez que nos vimos. espero que as memórias amorosas do seu irmão possam te trazer momentos de paz durante o seu luto. O cartão, que chegou inesperadamente pelo correio, foi enviado pela minha higienista, a profissional que limpa meus dentes de três em três meses.

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o passado não condena