porta na cara é pouco

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Tô trabalhando em casa, batem na porta:

—olá, somos missionários!

—to ocupada agora, trabalhando.

—podemos voltar outra hora?

—NÃO!

[bater na porta dos outros às duas da tarde pra falar de religião. é demais!]

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feriadão com chuva

*

the vintage on the desk

Voltei pro trabalho depois de vários dias doente e ganhei—um pomelo gigante, vários grapefruits, muitos limões rosa e uma kitchen aid vintage.

Ao invés de ir ao supermercado comprar ingredientes, como sempre faço, decidi ir num restaurante mexicano em downtown e pedir crispy tacos to go. Sempre que faço essas coisas fico meio deprê e penso como comer fora aqui nos EUA é um troço agressivo. Comida pesada, feita com ingredientes de má qualidade, calorias vazias, muitos aditivos. Não é o comer fora festivo, mas o comer fora rotineiro. Um contraste imenso com a delicadeza de se cozinhar em casa.

Se um dia você ler uma notícia—mulher morre soterrada por pratos, pode ter certeza que a mulher morta sou eu.

Quando falei a idade do meu filho, a médica perguntou se eu tinha netos. Então, passei pro outro lado, pro grupo que tem netos ou fala de netos. Só que eu ainda não tenho netos, só tenho filho.

Lindo essa gente andando descalça em casa no inverno, mas se eu [véia] ficar sem meia, morro congelada. Deixei a manteiga fora da geladeira de um dia pro outro pra fazer o bolo que pedia ela em temperatura ambiente. Fui usar vinte e quatro horas depois e a manteiga ainda estava dura. A temperatura dentro da minha casa fica naturalmente em 15ºC durante o inverno, subo pra 18ºC quando estou em casa.

California, onde tudo é 8 ou 80. Vocabulário  para 2017—sai a palavra “drought” entra a palavra “flood”.

Eu não sinto saudade de nada, muito menos de carnaval. Mas lembro que nessa época íamos ao sítio da minha tia e dela eu sinto saudade.

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⎜indivísivel ⎟

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Chorei o dia todo por causa das noticias do veto aos refugiados e imigrantes. O que todo mundo tá dizendo é, estou estressado, preciso parar de ler notícias. Mas como parar? Ficar desinformado e passar pro time dos alienados ignorantes? Não! Educação e informação são necessárias.

Sinto a situação aqui nos EUA está mais ou menos assim: todo dia um passo pra trás. Ou dois. Ou três. logo estaremos em 1930. Holocausto sem judeus, black history month sem blacks. Quem precisa de série da Netflix quando a realidade é muito mais canastrona e escrota.

Daí fiquei doente, uma gripe. Ainda estou.

De molho há dias, ando passando o tempo vendo documentários e filmes. Revi In the Mood for Love pra analisar os vestidos chineses da década de 60. Tinha me esquecido como esse filme é lindo!

Aprendi muito sobre vinhos em janeiro.

Meu chefe me deu laranjas. Minhas vizinhas me deram tangerinas.

Mirei nos ratos e acertei um espantalho. #ops

The Presidential seat is empty.

Barack Obama please come back, and bring some dragons with you!

Deeds not Words!

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long are we waiting awakening

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Nós caminhamos por zilhões de motivos diferentes e nos juntamos por um mesmo objetivo—todos nós queremos ser ouvidos. Uns estavam mais zen, outros mais preocupados, outros com raiva. Eu ainda estou na categoria dos enraivecidos, mas estou melhorando. Conversei com muitas pessoas nos últimos dias. Concordamos que saímos da passeata das mulheres nos sentindo bem melhor. A passeata que juntou milhões de pessoas ao redor do mundo, passeata pacífica, colorida, alegre, alto astral, criativa [os cartazes estavam maravilhosos]. Sem querer acabei vendo aqui e ali nas redes sociais, opiniões de arrepiar os cabelos. Uma fulana estava criticando as mulheres brancas que participaram da passeata na Austrália [onde ela vive] porque lá elas não precisam reivindicar nada, pois ninguém faz assédio sexual com elas, elas ganham salário equivalente ao dos homens [really?] e têm seguro saúde. Então esse supra-sumo da falta de altruísmo classificou a passeata australiana inútil, já que as mulheres de lá não precisam protestar nada [será?]. Não consigo entender uma cabeça encarcerada nesse grau de ignorância e egoísmo. Se não precisa protestar onde se tem benefícios, vamos todos acabar vivendo num mundinho triste, sem solidariedade ou empatia. Minha cabeça quase explodiu com isso. É muito deprimente. Depois vi machões brasileiros se auto intitulando liberais dizendo aqueles chavões altamente ignorantes—por que não foram então votar [fomos!], tem que aceitar o resultado da eleição [sério?], ele ainda não fez nada de errado [OMG!], essas feministas americanas precisam ser colocadas num manicômio [WTF!]. Que tal isso em pleno século 21? Meu marido deu risada quando comentei isso com ele e respondeu—essa gente está bem desinformada.

Falta informação, falta cultura, falta visão, falta pensar no outro, falta empatia, falta educação, falta saber a hora de admitir que as coisas estão mudando e aceitar que às vezes é melhor primeiro olhar e escutar, do que somente vomitar todo e qualquer tipo de opinião. Falatórios irresponsáveis assim é justamente o que não queremos mais.

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[ fuck this shit! *]

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The Women’s March — Sacramento
*poster favorito avistado durante a passeata!

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we started singin’ bye-bye, miss american pie

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Acordei às 6am com o som da tempestade, abri um pedacinho da persiana e olhei o vento e a chuva na escuridão. Pensei como seria bom call in sick e ficar na cama até mais tarde. Levantei, tomei meu café sem abrir muita coisa nas redes sociais e me preparei para ir trabalhar normalmente. Antes de sair liguei as duas tevês da casa, coloquei no canal TCM. As imagens do filme antigo passando me deixaram com vontade de ficar o dia em casa, debaixo das cobertas, alienada. O dia estava feio, escuro, tal qual o meu estado de espírito.

No trabalho o clima estava sombrio. Conversamos sobre nossos sentimentos, combinamos nossa ida à passeata de sábado. Meu chefe declarou o dia como não produtivo e nos incentivou a falar sobre o assunto na reunião matinal.

Então eu falei.

O presidente Barack Obama foi o meu primeiro presidente, como cidadã americana e do mundo. Eu nunca tinha elegido um presidente antes. No Brasil cresci durante uma ditadura militar e quando pude votar, não elegi meu candidato duas vezes. Deixei o país e só voltei a votar como cidadã americana. Obama foi meu primeiro presidente e o que realmente me fez sentir representada. Ele e a família me mostraram que o mais importante é sempre se manter a dignidade diante de toda e qualquer baixeza de caráter. Com o final desse mandato estamos dizendo adeus para a inteligência, a elegância e a eloquência. Dizemos adeus também para uma grandeza de caráter imensa, ao decoro e ao valor da palavra. Me sinto horrivelmente triste, mas sei que vai passar. E serei resistência. Começando amanhã, fazendo parte da passeata das mulheres em Sacramento. Até agora 673 cidades no mundo estão organizando passeatas irmãs da Women’s March em Washington D.C. Se isso não significa uma reação, não sei o que poderia ser.

No video Barack e Michelle estão visitando uma escolinha de crianças negras. Elas estão com as professoras no parquinho, encapotadas—cachecol, luvas, gorros. Dois gurizinhos sentados no balanço começam a gritar surpresos quando avistam o presidente—é o Barack Obama! é o Barack Obama! é o Barack Obama! E Barack reage com carinho, conversando e empurrando os gurizinhos nos balanços. Foram oito anos dessa família enchendo o meu coração de amor e meus olhos com lágrimas de emoção. Obrigada! Obrigada! Obrigada mesmo, por tudo!

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o passado não condena