estrelas

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Minha família passou por maus bocados neste ano. Enfrentamos o câncer da minha mãe, do meu irmão e da minha irmã. Minha mãe e minha irmã estão bem, dando continuidade à um pesado tratamento oncológico. Meu irmão morreu em agosto. Morando em outro país, meu desejo constante era o de estar mais perto fisicamente, mas tive que me concentrar na minha habilidade verbal e na força e positividade das minhas palavras pra ajudar a confortar os meus queridos. Toda essa vivência de doença e morte levantou um manto surreal que cobria a minha visão e revelou um novo mundo pra mim. Achei que estava razoavelmente preparada para o que estávamos confrontando, mas na verdade nunca estamos totalmente preparados para viver situações assim.

Quase tudo que acontece traz uma sensação de surpresa, principalmente o que acontece com relação às pessoas. Os coadjuvantes. Não me surpreendi com relação à como as pessoas temem os assuntos de doença e de morte. Como fogem, amedrontadas, achando que se conversar com você sobre essas coisas uma maldição vai se instalar ou a doença e a morte vão se espalhar como uma praga. Já estive do outro lado, também sem saber o que fazer ou o que dizer. Desta vez porém, pude perceber muito claramente essa dinâmica, observando a postura das pessoas que fazem parte da sua vida mas que mal conseguem articular uma frase clichê sobre doença e morte e já saem correndo, vão tomar um banho pra desinfetar, expurgar os demônios desse horror que ninguém quer experimentar.

O bom é que a surpresa também aconteceu da maneira inversa. Pessoas que surgem do nada pra te trazer palavras ou gestos maravilhosos, que te acalentam como um cobertor quentinho, seja através de vaso com flores deixado na sua porta, ou uma mensagem delicada, uma oferta de te escutar, um toque no ombro sem pressão, um cartão bonito que chega pelo correio.

Na semana passada recebi um cartão lindo, escrito com letra de mão caprichada, com palavras que me emocionaram e que diziam—estou pensando muito em você desde a última vez que nos vimos. espero que as memórias amorosas do seu irmão possam te trazer momentos de paz durante o seu luto. O cartão, que chegou inesperadamente pelo correio, foi enviado pela minha higienista, a profissional que limpa meus dentes de três em três meses.

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Carlos, vem comigo

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Carlos, vem comigo. Sente o calor desse sol. Não está surreal? Vê que lindas essas flores. Elas estão resistindo.

Carlos, vem comigo! Olha essa casa linda, com a grama e a cerquinha. Ali mora um gato. E naquela ali tem uma cachorra muito mansinha. Eu sou a caminhante amiga de todos os gatos e cachorros da vizinhança.

Carlos, olha que bonito que está o céu. Aqui é sempre azul, o verão todo.
Carlos, vem comigo e olha essa casa com as roseiras. E o gazebo. Você está sentindo o calor vindo do chão? Carlos, aqui é onde eu moro, a minha vizinhança cheia de casas antigas, vem comigo que vou te mostrar.

Carlos, vem comigo ver a casa azul com o cachorro branco. Ele sempre late quando eu passo, que bobo! E olha as sycamores, os maples e os carvalhos. Essas árvores são centenários. Você está sentindo a brisa? Ela ajuda bastante nesse calor. Carlos, olha quantos gatos, nessa casa são sete e às vezes nove!

Carlos, vem comigo! Mergulha no azul, olha o céu e a água. Carlos olha o prateado das bolhas, e o dourado dos reflexos. Carlos olha como é bonito todo esse azul. E a água fria refrescando o corpo, sente Carlos. Sente também as ondas massageando as pernas e os braços. Vem, Carlos, desliza comigo, nessa luz da manhã, tudo azul, em cima e em baixo.

Carlos, sente comigo, vê o que eu vejo, anda comigo, nada comigo, vem comigo passar esses últimos dias nessa vida, pois um lugar muito mais bonito e perfeito te aguarda. E quero te mostrar só dessa vez como vivemos por aqui.

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a little misanderstanding

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Fui ao Brasil por duas semanas para ver três pessoas muito doentes na minha família. Quando voltei meu chefe me recebeu com flores e um cartão daquele tipo “we’re thinking of you” assinado por colegas do trabalho. Abri o cartão e li comovida muitas palavras queridas. Mas qual foi a minha surpresa quando vi que três pessoas escreveram “I’m so sorry for your loss” [wth?] e uma escreveu “happy birthday!” [whf?]. Eu, meu chefe e a coleguinha ficamos rindo a beça, porque faltou entendimento da situação nesses quatro casos, mas no último caso também faltou estar presente e ter um pouco de noção.

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[ wink ]

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wink
[Helena Perez Garcia]
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quase passou

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“I must go home periodically to renew my sense of horror.”
~ Carson McCullers

Sonhei que comia uns pedacinhos bem minúsculos de carne e a minha repugnância era incontrolável. Estou muito feliz por ter pulado fora desse circo de horrores. Nenhum gosto na minha boca [que nunca nem curti] vale tanto sofrimento alheio. Estou vendo Street Food e estou gostando das histórias pessoais, mas o jogo mudou pra mim de tal maneira que ficou impossível não perceber os animais. E sinceramente isso não tá mais divertido.

Um perfil no instagram começou a me seguir, fui olhar e a pessoa cozinha com insetos. Vi um prato cheio de larvas, outro com algo que parecia arroz com gafanhoto triturado. Fechei tudo horrorizada e repugnada, mas dividi o link com meus colegas de trabalho.

A conversinha foi mais ou menos assim:

eu—você quer trazer um queijo bem salgado [pra vocês] e eu trago os figos em calda na segunda pra gente saborear todos juntos?

pessoinha se fazendo de tonta—ah, preciso fazer bolachinhas neste final de semana, onde será que encontro sementes de……

eu—okay, vou pedir pra outra pessoa trazer o queijo e eu trago os figos pra dividir.

Caraleos, phoda-se então, né? [e não levei figo nenhum pra dividir com ninguém]

Meu chefe queria me trazer umas plantas e eu—minha casa é o San Quentin das plantas, entrou aqui, vai morrer.

Os tomates já estão plantados nos campos agrícolas da minha região.

Caminhar pra mim é o maior desestressante. Minha vizinhança é tão arborizada, com árvores centenárias e agora são tantas flores, é uma coisa inebriante. E ainda tem os gatos e os cachorros, pra quem eu sempre tenho uma palavrinha e um aceno.

Meu mantra tem sido—vai ficar tudo bem, com todo mundo.

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no final de abril

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Dirigindo até a casa da minha amiga, que vive no topo de uma colina em Winters, passei por muitos pomares de amêndoas e nozes com o chão forrado de flores de mostarda. Uma visão tão linda e não pude parar pelas estradinhas pra tirar fotos. Fotografei só na memória.

No caminho pro trabalho dirijo por uma estradinha e vejo um aeroporto com um hangar cheio de aviõezinhos amarelos, usados pra espirrar pesticida nos campos agrícolas. nhé. No caminho pro trabalho dirijo por algumas estradinhas e nelas vejo campos com vaquinhas, cavalos e, o mais fofo, cabritinhos pastando. Hoje vi uns tão pequenininhos e eles foram um raio de felicidade que iluminou o meu dia.

Cheguei no nível que quando alguém me pede “dicas” da Califórnia tenho um branco não sei o que dizer. Porque vivemos numa rotina casa–trabalho–casa, vida cotidiana, moro na roça, no final de semana faço trabalho doméstico, nem sei de nada, dsclp.

Estava com a impressão que iríamos passar do inverno pro verão, assim mesmo na bucha. Foi inverno na primavera, agora está sendo verão. Uma trapalhada climática.

Contrataram uma fulana que tem um blog de culinária. E é super sabe tudo. Voz altíssima. Não consigo mais terminar uma mísera frase nas conversas na mesa comunal durante o almoço. Mal começou e já cansei. Não quero pegar o primeiro lugar na maratona, só quero chegar no final, inteira. Talvez minha falta de competitividade seja a minha desgraça.

E quando alguém está vendendo um “peixe” que você nem consegue entender exatamente do que se trata? Me sinto feliz por não precisar vender o meu peixe e ficar divulgando o que faço profissionalmente nas internetes. Se tivesse, não sei como faria.

O praticante de mindfulness que quer vender o peixe da prática num falar incessante, sem ouvir e nem mesmo perceber o outro, não vai ter muito sucesso angariando simpatizantes. Porque exemplo vale muito mais o que palavras, não é mesmo?

Uma frase que americano fala pra absolutamente tudo e que ainda não vi brasileiro copiando traduzido literalmente—I’m so excited!

Acabou culinária pra mim, pois ontem chorei vendo um episódio de Chef’s Table por causa dos caranguejos.

Como explicar que estou com esse hematoma porque abri a porta do carro diretamente na minha própria cara?

Comprei dois vestidos, um tamanho 10 e o outro tamanho 8. Estou boquiaberta até agora!

Está sendo uma época de revoluções pra mim.

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Charlotte Greenwood demonstrating her flexibility at Metro Goldwin Mayer studios | Boris Lipnitzki | 1928
Charlotte Greenwood demonstrating her flexibility at Metro Goldwin Mayer studios | Boris Lipnitzki | 1928
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o passado não condena