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Buda

Não planejei, apenas fiz um bolo de chocolate com quatro camadas e então percebi que esta é a minha última semana com 55 anos. Gostei de ter essa idade. Estou crescendo, mudando, envelhecendo, ficando um pouco mais sábia, um pouco cética, menos tolerante com bull shit, menos disposta a comprometer minha dignidade com hipocrisias. O bolo feito com farinha de espelta germinada, ficou rústico e levemente doce. Tem batata doce na massa, chocolate e ovos orgânicos. Comi duas fatias. Achei tudo isso muito auspicioso.

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that’s a wrap

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Pelas fotos reparei que o casal só faz coisas com outros casais. E são todos iguais a eles, brancos e heteros. Não tem solteiro, divorciados, gays, gente de outras raças e cores. É só mais do mesmo, deixando todas as fotos basicamente a mesma coisa. Primeira vez que estou organizando uma reunião no trabalho. O secretário escolheu as datas. marcou pra 31 de outubro, Halloween. Decidi que vamos então fazer um concurso de fantasias na reunião. Já escolhi a minha. Serei um inseto não identificado. No teatro antigo da cidade, vimos três filmes mudos acompanhados por um pianista fazendo a trilha sonora ao vivo. Foi muito divertido! Amo filmes mudos, mas nunca tinha visto um na telona e com piano ao vivo, como era feito na época. Vimos um Chaplin, um Keaton e um Chase. Cortei o café do meu café da manhã. Agora vou ter que chamar essa refeição de desjejum. Levei uma compota de figos pra moça que me deu os figos. Snack natureba na MS––power raisins. Que são apenas passas com sementes, como era antigamente.Agora se tocaram que comer as sementes faz bem. Coloquei o capim santo dentro da french press, deixei na bancada da cozinha do trabalho e fui até o banheiro. Quando voltei, tava um bafafá, todo mundo querendo saber o que era aquele mato ali dentro. Algo tão normal pra mim, uma coisa exótica pra outros. O jornaleco da minha cidade publicou algo sobre o DACA,  fui ler os comentários [burra] e fiquei deprimida com a avalanche de falas ignorantes.  Gente que só vê tevê e lê facebook, não pode mesmo ter senso crítico, nem capacidade de discernimento.  Imagino como seria legal se toda noticia sobre o Dromptrs fosse ilustrada com uma foto bem bonita do Obama! O trancetê dos caminhões carregados com tomates é a visão clássica do final do verão aqui na roça.

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day in day out

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Alguém foi viajar e me mandou uma mensagem dizendo—vá a qualquer hora pegar quantos figos quiser na minha figueira. Então serei dona de uma árvore de figos por 3 semanas!

Acho que fico feliz super fácil. Fiquei embevecida de felicidade porque tivemos uns dias de máxima de 28ºC depois de meses de muito bafão. Outra grande felicidade simples pra mim é quando meu filho vem me visitar e ficamos conversando em português. Também amo quando ele traz a Alaska.

Quando criança levei um disco de ópera do meu pai na escola, a classe toda riu de mim. Hoje, por mil outras razões, continuam rindo. Antes eu chorava, agora só fico um pouco perturbada, depois supero. Não sou o problema.

Troglô deixa bem claro, o tempo todo, o quanto ele detesta trabalhar no nosso grupo. Mas daí tem comida de graça na cozinha e o sujeito faz até uma dancinha da alegria com o prato na mão. Ah, os hipócritas sanguessugas.

Estou vestindo um par de capri jeans da banana republic e uma camisa da j. crew. O custo total desse outfit foi $12.00. Invisto em sapatos, com o resto não tenho preconceito.

Voltando do nosso clássico picnic anual na praia, passamos por uma comunidade zen budista. Paramos e fomos visitar a fazenda deles. Q ue coisa maravilhosa! uma fazenda orgânica. Eu não queria mais ir embora, já tava pronta pra me listar de ajudante de cozinha, qualquer coisa!

Ontem teve uma eclipse solar. Foi parcial, mas foi divertido. Como já disse, fico feliz com pouco.

White lady: We don’t serve colored people here.

Dick Gregory: I don’t eat colored people. Bring me a whole fried chicken.

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foi o céu que me oprimiu

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No dia 25 de dezembro de 2016 um peso imenso, que estava me destruindo, saiu das minhas costas e do meu coração e fez minha vida melhorar. Estou me reconectando com algo que era muito precioso pra mim e do qual tinha me desconectado. Ou melhor fui desconectada, sem eu querer, sem eu entender o motivo.

Mais um dia horrorendamente quente. Normalmente faz 40ºC com aquele solão e faz a gente se sentir numa fornalha. Mas hoje estava meio estranho, um céu opaco, uma coisa opressiva. Fui nadar às 11:30 e me senti desconfortável. Comecei a sentir fome e pensar em comida nos vinte minutos finais e tive que parar de nadar. Fui ficando tonta, zonza, tonta, zonza. Sorte que tinha umas bolachinhas no carro. Nadei como sempre nado. Comi no meio da manhã. Não foi fome, foi o calor baforento sobre o céu opressor e opaco. É nessa época que penso com saudade na chuva.

Temos que medicar o gato engraçado, que fala com a gente fazendo caras de nhoque. Não está sendo fácil. Na semana do antibiótico pelo conta-gotas fui arranhada em todos os lugares possíveis do meu corpo, um arranhão pior que o outro. Com o comprimido, que ele PRECISA tomar todos os dias, tem sido uma novela. Outro dia chorei desesperada pensando, meu gato vai morrer porque não consigo medicá-lo! Agora o Gabriel está vindo me ajudar. Pensa que é fácil enfiar um comprimido azul garganta abaixo de um gato? Se ele sobreviveu quatro meses perdido durante um verão, tenho certeza que vai sobreviver à essa doença. Mas uma coisa é certa, não acho que terei mais animais depois desses. É muito brutal perdê-los.

Na próxima semana farei uma viagem de trabalho que pros meus padrões tem tudo para ser um baita passeio de índio. Mas já faz muito tempo que decido abraçar com entusiasmos todas as oportunidades que aparecerem na minha frente. Sei que é possível se surpreender.

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novo e velho

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min 17ºC — max 38ºC

No caminho pro trabalho, bem na entrada de Davis, ainda tem um campo com os girassóis sendo lindos. Sempre tinha alguém lá tirando foto! Nesse dia era eu. 🌻

Todo ano eu acho que é o pior ano, com o verão mais quente. Um rosário de reclamações sem fim. Mas na verdade é quase tudo igual. Julho & agosto são de lascar, aceita isso e segue em frente.

Por causa do calor, enchi a piscina dos passarinhos.

O gato que dava botes nos raios de sol está doente. Como esse gato sempre foi fabuloso, amigável, brincalhão, bonachão, resistente, divertido. Estou passada que ele já não é mais o mesmo e que já avisto a possibilidade de perdê-lo.

Os anos passam, os problemas são sempre os mesmos. Dentes, dinheiro. Gato doente.

Minha desculpa esfarrapada pra não levantar às 5:30 e ir caminhar—dormir também faz bem pra saúde.

Ouvir rádio é tão bom, tanta coisa interessante. Escuto mais rádio do que assisto televisão.

Estou ficando cada dia melhor em mandar trabalho de volta pra pessoa completar o que não fez e sugeriu que eu fizesse.

bbq master que vai ter que fazer burguer de feijão pros veganos—veganos odeiam comida!
eu—alguns podem até odiar comida, mas todos amam os animais.

Não sou vegana nem vegetariana, mas sinto tanta compaixão pelos animais, considero que essa gente me representa!

Noutro dia, indo buscar os ovos na fazenda, fiquei atrás de uma mulher dirigindo um carro vermelho com o bumper stickers do Trompfts ––MAGA. Fui xingando, inconformada, até ela virar uma rua e desaparecer da minha vista. Achei aquilo o fim da picada, uma ostentação publica da própria estupidez e ignorância.

Consigo ver do carro, quando passo pelo estrada ao lado do pomar de nozes, as frutas enormes penduradas nas árvores. Logo tem colheita!

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dá cá

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Primeiro viajei, depois fiquei doente, depois tive uma operaçãozinha bucal. A sensação é que não conseguiria mais voltar à rotina. Saudade da minha rotina, a vida na bolha, dirigir pelas estradinhas para ir trabalhar, caminhar pela vizinhança, fazer minhas comidas, tentar aproveitar o que o verão tem de bom. O verão, que este ano está uma representação da fornalha. Lembro de ter dias de 28C depois de uma onda de calor. Agora, quando melhora ficamos felizes com 33C. Cada dia mais penso com mais certeza de que não quero passar a minha velhice aqui. Pelo menos neste verão temos água.

Falar me cansa e me deixa com desconforto. Uma ótima oportunidade pra ficar quieta. Mas quem consegue? No almoço já fiquei matracando sobre filmes antigos com o meu chefe. Ele tem muita paciência. Quem aguenta esses assuntinhos? Também porque a impressão que eu tenho é que todos falam sempre sobre o mesmo assunto, como uma onda, uma coreografia coordenada de assuntos que não me interessam.

Não lembrava que tinha ido num show da Laurie Anderson, mas fui sim, e foi este blog me ajudou a lembrar. Na sequência achei essa história divertida, que nunca lembraria se não tivesse escrito sobre o ocorrido. Já fui em muito show, não vou mais.

Decidi fingir que não li a opinião idiota que passou por mim noutro dia. Foi o melhor que fiz. Devo fazer sempre.

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o passado não condena