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all things reconsidered

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Cliquei num link e li essa história muito divertida—mais cheia de erros do que de acertos, mas de qualquer maneira divertida. Olho pra trás e não sinto saudades de nada, somente da falta de preocupação que eu tinha. Tudo parecia possível, mas era complicado, o futuro era um lugar distante e incerto, mas com inúmeras possibilidades, e o presente era aquilo que eu tinha e vivia sem nenhuma habilidade de analisar nada. Hoje já me sinto muito mais capacitada, mas um pouco mais limitada, caminhando numa trilha mais fechada, mais curta, onde os problemas são um pouco mais complexos do que jamais imaginei que seriam. Daqui quinze anos posso ler o que escrevi hoje e pensar o mesmo, de como a minha visão de mundo mudou. Deve ser assim mesmo olhar pra trás.

Tivemos o outono mais quente de todos que consigo me lembrar. Está tudo diferente, as árvores sucumbiram mais cedo, talvez pelos dias de ventania que foram muitos. Tenho a impressão de que de agora em diante tudo será muito instável e imprevisível, ou porque estamos envelhecendo e vendo tudo por outro prisma, ou pela dura realidade das mudanças climáticas, ou pela combinação dessas duas coisas. Nenhum verão ou outono será igual a algum outro pelo qual já passamos. Tudo será novo, visto com olhos de iniciantes.

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estrelas

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Minha família passou por maus bocados neste ano. Enfrentamos o câncer da minha mãe, do meu irmão e da minha irmã. Minha mãe e minha irmã estão bem, dando continuidade à um pesado tratamento oncológico. Meu irmão morreu em agosto. Morando em outro país, meu desejo constante era o de estar mais perto fisicamente, mas tive que me concentrar na minha habilidade verbal e na força e positividade das minhas palavras pra ajudar a confortar os meus queridos. Toda essa vivência de doença e morte levantou um manto surreal que cobria a minha visão e revelou um novo mundo pra mim. Achei que estava razoavelmente preparada para o que estávamos confrontando, mas na verdade nunca estamos totalmente preparados para viver situações assim.

Quase tudo que acontece traz uma sensação de surpresa, principalmente o que acontece com relação às pessoas. Os coadjuvantes. Não me surpreendi com relação à como as pessoas temem os assuntos de doença e de morte. Como fogem, amedrontadas, achando que se conversar com você sobre essas coisas uma maldição vai se instalar ou a doença e a morte vão se espalhar como uma praga. Já estive do outro lado, também sem saber o que fazer ou o que dizer. Desta vez porém, pude perceber muito claramente essa dinâmica, observando a postura das pessoas que fazem parte da sua vida mas que mal conseguem articular uma frase clichê sobre doença e morte e já saem correndo, vão tomar um banho pra desinfetar, expurgar os demônios desse horror que ninguém quer experimentar.

O bom é que a surpresa também aconteceu da maneira inversa. Pessoas que surgem do nada pra te trazer palavras ou gestos maravilhosos, que te acalentam como um cobertor quentinho, seja através de vaso com flores deixado na sua porta, ou uma mensagem delicada, uma oferta de te escutar, um toque no ombro sem pressão, um cartão bonito que chega pelo correio.

Na semana passada recebi um cartão lindo, escrito com letra de mão caprichada, com palavras que me emocionaram e que diziam—estou pensando muito em você desde a última vez que nos vimos. espero que as memórias amorosas do seu irmão possam te trazer momentos de paz durante o seu luto. O cartão, que chegou inesperadamente pelo correio, foi enviado pela minha higienista, a profissional que limpa meus dentes de três em três meses.

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Carlos, vem comigo

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Carlos, vem comigo. Sente o calor desse sol. Não está surreal? Vê que lindas essas flores. Elas estão resistindo.

Carlos, vem comigo! Olha essa casa linda, com a grama e a cerquinha. Ali mora um gato. E naquela ali tem uma cachorra muito mansinha. Eu sou a caminhante amiga de todos os gatos e cachorros da vizinhança.

Carlos, olha que bonito que está o céu. Aqui é sempre azul, o verão todo.
Carlos, vem comigo e olha essa casa com as roseiras. E o gazebo. Você está sentindo o calor vindo do chão? Carlos, aqui é onde eu moro, a minha vizinhança cheia de casas antigas, vem comigo que vou te mostrar.

Carlos, vem comigo ver a casa azul com o cachorro branco. Ele sempre late quando eu passo, que bobo! E olha as sycamores, os maples e os carvalhos. Essas árvores são centenários. Você está sentindo a brisa? Ela ajuda bastante nesse calor. Carlos, olha quantos gatos, nessa casa são sete e às vezes nove!

Carlos, vem comigo! Mergulha no azul, olha o céu e a água. Carlos olha o prateado das bolhas, e o dourado dos reflexos. Carlos olha como é bonito todo esse azul. E a água fria refrescando o corpo, sente Carlos. Sente também as ondas massageando as pernas e os braços. Vem, Carlos, desliza comigo, nessa luz da manhã, tudo azul, em cima e em baixo.

Carlos, sente comigo, vê o que eu vejo, anda comigo, nada comigo, vem comigo passar esses últimos dias nessa vida, pois um lugar muito mais bonito e perfeito te aguarda. E quero te mostrar só dessa vez como vivemos por aqui.

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a little misanderstanding

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Fui ao Brasil por duas semanas para ver três pessoas muito doentes na minha família. Quando voltei meu chefe me recebeu com flores e um cartão daquele tipo “we’re thinking of you” assinado por colegas do trabalho. Abri o cartão e li comovida muitas palavras queridas. Mas qual foi a minha surpresa quando vi que três pessoas escreveram “I’m so sorry for your loss” [wth?] e uma escreveu “happy birthday!” [whf?]. Eu, meu chefe e a coleguinha ficamos rindo a beça, porque faltou entendimento da situação nesses quatro casos, mas no último caso também faltou estar presente e ter um pouco de noção.

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[ wink ]

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wink
[Helena Perez Garcia]
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o passado não condena