dá cá

*

Primeiro viajei, depois fiquei doente, depois tive uma operaçãozinha bucal. A sensação é que não conseguiria mais voltar à rotina. Saudade da minha rotina, a vida na bolha, dirigir pelas estradinhas para ir trabalhar, caminhar pela vizinhança, fazer minhas comidas, tentar aproveitar o que o verão tem de bom. O verão, que este ano está uma representação da fornalha. Lembro de ter dias de 28C depois de uma onda de calor. Agora, quando melhora ficamos felizes com 33C. Cada dia mais penso com mais certeza de que não quero passar a minha velhice aqui. Pelo menos neste verão temos água.

Falar me cansa e me deixa com desconforto. Uma ótima oportunidade pra ficar quieta. Mas quem consegue? No almoço já fiquei matracando sobre filmes antigos com o meu chefe. Ele tem muita paciência. Quem aguenta esses assuntinhos? Também porque a impressão que eu tenho é que todos falam sempre sobre o mesmo assunto, como uma onda, uma coreografia coordenada de assuntos que não me interessam.

Não lembrava que tinha ido num show da Laurie Anderson, mas fui sim, e foi este blog me ajudou a lembrar. Na sequência achei essa história divertida, que nunca lembraria se não tivesse escrito sobre o ocorrido. Já fui em muito show, não vou mais.

Decidi fingir que não li a opinião idiota que passou por mim noutro dia. Foi o melhor que fiz. Devo fazer sempre.

  • Share on:

the way we were

*

Fazia muitos anos que eu não olhava aqueles dois álbuns com fotinhas do meu casamento. São dois livrinhos pequenos, capinha de papel, as fotos enfiadas em lâminas de plástico. Eu não quis aquelas fotos caretas de casamento, nem álbum cafona e caro. Meu pai então pediu pra um amigo dele fazer uns cliques. Ficou tudo muito simples, casual, bem amador. Mas era 1982 e nem tínhamos mesmo todos esses recursos e parafernálias que temos hoje. Fui olhar as fotos pra mandar pra família do Uriel e compararmos nossas caras, no primeiro casamento da família e neste último que fomos, da nossa primeira sobrinha.  Não esperava ficar tão chocada em ver as nossas carinhas de crianças. Nós com vinte anos,  a inocência, o amor e a autenticidade. Não fui uma noiva comum. Pra época, fui bem diferente. Não usei vestido longo, nem enfeite na cabeça, meu vestido era de gestante, pois estava grávida de cinco meses. O Uriel com a gravata do terno torta e aquela cara amorosa dele, o tempo todo de mãos dadas comigo, como se não pudesse correr o risco de me deixar escapar. Lembro muito bem de não ter gostado de mim em algumas daquelas fotos, pois não gostei de ter me deixado maquiar [e pentear e manicurar], nem do casamento na igreja pra deixar a família feliz, aquela pessoa não era exatamente quem eu era. Mas agora vejo que era sim. Fiquei nervosa durante a cerimônia na igrejinha, mas curti imensamente a festa, que só teve bolo e champagne num salãozinho simples ao lado.

Ninguém comentou nada, mas quero dizer aqui que achei eu e o Uriel incrivelmente lindos e extremamente fofos em todas as fotos. Tão felizes, com tantos sonhos e expectativas. Fica muito mais fácil admitir hoje, com cinquenta e cinco anos, que não somos iguais a todo mundo, formamos um casal bem diferente, mas acho que no final deu tudo muito certo.

  • Share on:

os Cartier-Bressons [wannabes]

*

Não fotografo mais com câmera há anos. Faço tudo com meu iphone, emprestei [dei] minha câmera e lentes pro meu filho. Faz tempo que simplifiquei a vida. Os iPhones fazem fotos ótimas, dão muito bem pro meu gasto e pras minhas necessidades. Fotografo o que bem entendo—frutas, flores, casas, pratos, gatos, comidas, e coloco no meu instagram. Quem gostar, olha, segue, curte. Não tenho nenhuma pretensão. Nunca me considerei fotógrafa, nunca tive essa ambição, nem essa esperança. Faço apenas porque gosto, acho que tem gente que gosta, e se eu gosto, tá ótimo.

Conheço algumas pessoas que ou se acham fotógrafos ou almejam ser, porque têm câmeras maravilhosas [ou pensam que tem], e saem por ai tirando foto de paisagem e de gente. Quase todos esses auto-intitulados fotógrafos ou almejantes de serem um, são péssimos. Uma estoura todas as fotos que ela faz com uma câmera e lente caríssimas usando Photoshop. Outra usa zoom o tempo todo e tira um monte de foto de gente de costas. Outro tem muito que treinar o olho. E mais um, talvez o pior, simplesmente não tem talento nem sitôcometro, usa flash e transforma todos os objetos que ele clica em pura feiura. Não sou fotógrafa, mas sou bem crítica, não me acho assim tão boa fotografando, mas sei exatamente o que é bom. E essas pessoas que eu conheço e que se acham fotógrafas, simplesmente não são.

Uma delas trabalha com fotografia corporativa. Se acha maravilhosa e critica os outros. Nunca me elogiou, não que precise, mas às vezes eu comento as fotos dela por educação. Uma vez ela chamou de HORROROSA uma foto super bonitinha que outra pessoa, amigos em comum, fez. Fiquei horrorizada. Afirmo constantemente pra ela que minhas fotos são absolutamente sobre meu lifestyle e não sobre técnica e profissionalismo, só pra me remover desse grupinho que acha que é artista.

Sigo o blog de uma moça há anos. Ela vive num país frio que não pertence ao circuitão turístico. Ela viaja bastante, mas não são as viagens que me fascinam. As fotos dela, tiradas com câmera, são absolutamente únicas. Nunca tinha visto nada igual. Não sei se tem alguma técnica, mas as fotos são lindas, mostrando apenas o que ela vê, e nem sempre são imagens perfeitas. Quase não tem pessoas, apenas coisas, paisagens. Pra mim essa moça do país do norte é uma verdadeira artista. Adoro todas as fotos que ela faz, me inspiro nela para ser menos rígida com perfeição, alinhamento, clareza, moldura, beleza e visual tradicional. Talvez por ver fotos como as dessa moça, me sinto tão deslocada desse grupo que quer ser algo que não é, que critica sem olhar o próprio rabo, que tem aspirações sem ter talento, mas não tem a humildade de admitir isso. Outro dia tava pensando que com a popularização das câmeras profissionais e a alta qualidade das câmeras de smartphones, estamos virando um planeta de fotógrafos wannabes. Pior é que estamos seriamente nos sentindo verdadeiros Cartier-Bressons, e digo isso achando que essa onda não é realmente uma coisa boa, muito menos positiva.

  • Share on:

nem merecia satisfação

*

Tava fazendo minha caminhada de rotina pela vizinhança no final do dia e cortei caminho por uma rua por onde não passo costumeiramente. Tava, como sempre, parando pra tirar foto das flores, quando vi uma velhota branquela de cara vermelha sentada na frente de uma casinha me chamando, fazendo um gesto com o dedo. Atravessei a rua e fui lá ver o que ela queria.

ela—você é de alguma companhia?
eu—companhia? não só tô fazendo minha caminhada.
ela—ahnm, caminhando?
eu—sim, moro aqui na vizinhança, tava tirando foto das flores.
ela—ah, é porque andaram acontecendo algumas coisas por aqui….
eu—ah tá…

Virei as costas, voltei pra minha caminhada e deixei a velhoca lá, confabulando sozinha. Em tempos de Tonaldo Drumpts cheguei a ficar ressabiada quando ela me chamou, pois pensei que ela fosse me dizer—o que você tá fazendo aqui, volta pro seu país! Mas era só uma idiota se achando a Xeroque Rolmes da vizinhança, fazendo a ronda com o olho, sem sair da cadeira, checando os indivíduos “suspeitos” que paravam pra tirar fotos “secretas” das flores.

Um pouco mais pra frente senti um cheiro absurdo de maconha vindo de uma das casas da mesma rua. Realmente, os inimigos são os outros.

  • Share on:

the bucket is half full

*

Levei quase um ano para ligar pro médico pedindo um follow-up e tive que passar o dia vigiando o telefone, esperando por um retorno de alguém que iria marcar a consulta. Iria, pensei erradamente. É claro que eles sempre dizem que não é nada, o problema é normal, e que devo ver meu médico de família. Tenho que me conformar que sou a pessoa que passa por uma operação pra consertar algo e acabo com um problema extra. Such is Life.

Minha ex-chefona passou numa visita, fazia uns três anos que eu não a via. Ela perdeu peso. Gosto imensamente dela, tirando o fato de que foi ela que nos deu a miserável Ogra, a criatura desprezível que infernizou a vida de todos por mais de cinco anos.

Um cinto de mais de 20 anos do Uriel arrebentou.
eu—vamos parar no shopping e comprar um novo.
ele—levei o cinto no sapateiro pra consertar.

Meu marido, o conserta-tudo. Gostei quando ele consertou a máquina de lavar roupas, quando eu já tava com um pé na rua, indo na Sears comprar uma nova.

Troquei de roupa 3 vezes e vim trabalhar vestindo um kaftan africano. Felizmente até agora só ouvi elogios. E quem não elogiou fixou o olhar no horizonte e fingiu que não viu. Sou discretona, mas tenho coragem.

Fui colher amoras e lá no meio do campo, no silêncio,  ouvindo apenas os passarinhos, pensei que quanto mais fecha o cerco dos ignorantes, mais quero me embrenhar na roça. Não quero viver em cidade grande. Quero pelo menos ter qualidade de vida.

Quando vamos nos livrar dessa vergonha que chamamos hoje de presidente?

  • Share on:

s’posin

*

Na semana passada vi um balão amarelo no céu de Woodland pela manhã. São as excursões vindas do Napa Valley. No dia seguinte tinha três balões e , de repente, um deles  aterrissou num campo de feno. Ops!

Também foi na semana passada que abri a porta de casa pra ir pro trabalho e tinha uma sacola cheia de laranjas esperando por mim.  Voltei do trabalho e tinha outra sacola. Presentes da minha vizinha. Estou comendo laranjas todos os dias, além das cerejas que ganhei da amiga do meu chefe e das nêsperas, que desovaram na cozinha do trabalho.

Depois de ser soterrada por duas caixas de cerejas, colhidas fresquinhas da árvore, posso dizer com convicção que gosto mais de cereja do que de morango. Fiz pickles de cereja, receita francesa. Tive que pinicar uma por uma com um alfinete. Descaroçar cereja, abrir romã, lavar folhas de espinafre, picar legumes em quadradinho, espremer limão, tudo isso é tarefa pra zen master. E limpar alcachofra também. Que eu fiz ontem.

Sair pra caminhar com duas colegas que falam alto e rápido, como metralhadoras cuspindo fogo e balas, é muita desvantagem pra mim. Eu com minha voz de instrutora de ioga e meu ESL. Tenho que gingar. Pra me manter no convercê.

O universo dos trambiqueiros é um buraco negro pra mim.

Estou confusa, não sei se ainda é primavera ou se já é verão.

hoje:
eu—olha, que delicia esse chá fermentado com frutas, estou adorando!
o outro—[cara de desinteresse]

dez anos depois:
o outro—olha, que delicia esse chá fermentado com frutas, estou adorando!
eu—REALLY??? ಠ_ಠ

  • Share on:

o passado não condena